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Monday, March 5, 2012

General duvida que Dilma tenha sido torturada na ditadura


General duvida que Dilma tenha sido torturada na ditadura

E lança suspeita sobre participação da presidente em atentado
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General Luiz Eduardo Rocha Paiva
Foto: Reprodução TV
General Luiz Eduardo Rocha PaivaREPRODUÇÃO TV
RIO - O general Luiz Eduardo Rocha Paiva acha que a Comissão da Verdade, para não ser “parcial e maniqueísta”, tem que convocar também os que participaram de ações armadas, direta ou indiretamente. Não hesita em perguntar até se a presidente Dilma Rousseff não tem que depor:
- Ela era da VAR-Palmares, que lançou o carro-bomba que matou o soldado Mario Kozel Filho. A comissão não vai chamá-la, por quê?
Rocha Paiva se refere ao atentado ocorrido em 26 de junho de 1968 no Quartel-General do II Exército, em São Paulo. Até 2007 Rocha Paiva ocupava posição de destaque no Exército. Foi comandante da Escola de Comando do Estado-Maior do Exército e secretário-geral do Exército. Abaixo, trechos da entrevista:
O GLOBO: Por que o senhor é contra a Comissão da Verdade?
ROCHA PAIVA: Eu sou contra a Comissão da Verdade, agora não adianta ser contra. Ela vai existir. Era contra no momento em que ela pretende apurar a memória histórica do país. Isso é trabalho para pesquisadores e para historiadores e não para uma comissão, que eu vejo como uma comissão chapa branca. Ela busca a reconciliação nacional depois de 30 anos, e não há mais cisão nenhuma, que tenha ficado do regime militar, inclusive porque as Forças Armadas são instituições da mais alta credibilidade no país. Então, não vejo a necessidade. Acho que se há alguma coisa a investigar é só usar a Policia Federal e, com vontade política, a presidente tem autoridade pra ir até onde ela quiser, respeitada a Lei de Anistia. Eu fiz uma análise da lei da Comissão Nacional da Verdade. E eu vejo que essa lei não é imparcial. Esse facciosismo e o provável maniqueísmo  do seu relatório a gente pode ver a partir dos  objetivos.
Por que o senhor acha que é parcial?
ROCHA PAIVA: O objetivo é promover o esclarecimento de torturas, mortes, desaparecimentos forçados e ocultação de cadáveres. Por que não promover também o esclarecimento de atentados terroristas e sequestros de pessoas e aviões e de execução e justiçamento até de companheiros da luta armada que tentavam desertar? Ora, a pessoa pode alegar, na comissão, que isso não é objeto da lei, mas tinha que ser objeto da lei. O outro objetivo da lei é tornar públicos os locais e instituições e instâncias onde ocorreram violações de direitos humanos. Ora, por que não também tornar  públicos os locais de cativeiros de sequestrados, os locais de atentados terroristas e as áreas de homizio da luta armada, dos grupos armados dos partidos ilegais que conspiravam não para trazer liberdade para o país e democracia, mas para implantar aqui uma ditadura totalitária comunista?
O argumento de quem defende a lei é de que quem esteve contra o regime foi punido. Foi preso, foi torturado, foi exilado. E o Estado exercia o poder. E exerceu o poder contra o cidadão de forma autoritária, de forma abusiva. O que o senhor acha desse argumento?
ROCHA PAIVA: Eu acho que ele não cola. Pelo seguinte: nem todos os assassinos, terroristas, nem todos os sequestradores são conhecidos. Alguns que executaram a ação, sim, são conhecidos. Outros que planejaram ou estiveram no apoio logístico e no financiamento, esses não são conhecidos. Então, eles deveriam ser conhecidos também.
Por que os militares quando tinham todo o poder não fizeram essa apuração?
ROCHA PAIVA: Às vezes, não havia condições de fazer. Não houve possibilidade de fazer. porque se estava combatendo grupos armados que estavam executando operações. Veja bem uma coisa: a lei estabelece que as atividades da comissão não terão caráter persecutório e jurisdicional. No entanto, o ministro Ayres de Britto, do STF reconheceu, em parecer, à revelia da Lei da Anistia, o direito daqueles que se sentiram vítimas do regime militar moverem ações civis indenizatórias contra ex-agentes do Estado. Ora, se houve anistia, quem tem que indenizar, como já está fazendo, é o Estado. No momento que o ministro Ayres Britto abre esse precedente, quem for ouvido na comissão da Verdade poderá estar produzindo provas contra si próprio. Agora, ele abriu um precedente também e aí é que eu digo que a Comissão da Verdade, embora não esteja disposta a investigar os crimes da luta armada, se uma pessoa foi vítima de uma ação da luta armada, e ficou com sequelas, ela também tem o direito, até baseada no parecer do ministro Ayres de Britto, de mover ações civis indenizatórias contra esses guerrilheiros, terroristas, que numa ação armada deixaram uma vítima ou sequela em alguém. Eles terão direito, se não for investigado o que foi feito pela luta armada, essas pessoas não saberão quem são os responsáveis por suas sequelas. E a Justiça é igual para todos.
O senhor não acha que é preciso saber o que aconteceu com as 183 pessoas que desapareceram, entre eles pessoas que não tinham nenhum envolvimento com um órgão clandestino. Isso sem levar em conta que o que era legal e o que era ilegal era estabelecido por um governo que não foi eleito, era uma ditadura. Portanto a ilegalidade de alguns partidos é questionável. O ex-deputado Rubens Paiva sumiu dentro de uma guarnição do Exército. Ele foi preso, levado para o Terceiro Comar, e depois, de lá, para um quartel da Policia do Exército, onde foi visto pela última vez. A família há 41 anos busca informação e não tem. O Exército não tem a obrigação de dar informação?
ROCHA PAIVA: Como já falei, a presidente da República, comandante suprema das Forças Armadas, tem autoridade para abrir uma investigação. Ressalvada a Lei da Anistia, ela tem autoridade para abrir uma investigação. Por que ela não faz? Não sei. Não precisa uma comissão da verdade, que só vai investigar um lado, para isso. Veja bem: é emblemático o caso Rubens Paiva. Por que? O homem foi deputado, das classes favorecidas e todos se preocupam com ele e com Stuart Angel, também. Agora, por que os crimes do PC do B no Araguaia, crime como por exemplo o da perseguição e morte de mateiros, que eram guias das forças legais. Teve um que foi  torturado e assassinado na frente da mãe e do pai. Eles cortaram a orelha do rapaz na frente da mãe. O menino urrava de dor, a mãe desmaiou.
Os guerrilheiros do Araguaia foram quase todos mortos, exceto um ou outro.
ROCHA PAIVA: Nem todos. E quem os comandava, que estava em São Paulo a dois mil quilômetros de distância, no bem-bom?  Não vamos saber quem foram? Quem deu a ordem pra matar esse rapaz? Por que isso não é emblemático?  Porque ele era um zé-ninguém. Por que também não se apura quem deu ordem no PC do B para que as mulheres da guerrilha que engravidassem tivessem que abortar na região. Eles deram essa ordem.
O senhor sabe de torturas dentro do Exército? Chegou a ver?
ROCHA PAIVA: Não...eu não vi tortura dentro do Exército.
O senhor nunca soube de tortura dentro do Exército?
ROCHA PAIVA: Ah, para saber basta a senhora ir às livrarias, comprar uns livros, a senhora vai ver um rol  de casos de tortura.
O senhor não acha que isso é um desvio?
ROCHA PAIVA: Isso é um desvio, ninguém está dizendo que não é um desvio. Agora, não foi anistiado? Não é desvio também aqueles grupos armados revolucionários da esquerda, que seguiam linha maoísta, linha soviética, linha cubana, que queriam implantar aqui uma ditadura nos moldes das soviética, chinesa e cubana, que são as responsáveis pelos maiores crimes contra a Humanidade no século passado? Então, esses grupos que queriam se tornar Estado, usavam de atentados terroristas e tortura, com que moral esse grupo condena as violações no outro grupo?
O senhor acha então que está justificada a tortura dentro da instalação militar...
ROCHA PAIVA: Não. Eu não estou dizendo que está justificado. Estou mostrando o seguinte: que existiu uma luta, que foram cometidos desvios pelos dois lados, só que houve uma anistia.
Um lado foi punido. A presidente Dilma Rousseff ficou presa três anos e foi submetida a tortura.
ROCHA PAIVA: Sim, ela diz que foi submetida a torturas. A senhora tem certeza?
Ah, eu acredito nela...
ROCHA PAIVA: ah, e eu não sei. A senhora quer ver uma coisa? Veja bem.: quero um exemplo histórico de uma guerrilha revolucionária marxista, leninista, maoísta que não tenha usado violência, atentados terroristas e violado direitos humanos. Eu quero que me mostre um caso histórico de uma reação a essa esquerda revolucionária que tenha tido um desfecho tão pouco traumático como no Brasil. Porque na realidade, no Brasil, o governo e a oposição legal queriam a redemocratização do país. Então, no governo e na Arena era a redemocratização gradual e segura.
Demorou 25 anos...
ROCHA PAIVA: Exato. Dez anos de atraso. Dez anos de atraso, por causa da luta armada.
O senhor acha que a sua opinião é compartilhada pelos que estão na ativa?
ROCHA PAIVA: A opinião? Qual opinião? Eu não estou justificando a tortura. Tortura é crime como o terrorismo é crime. Sou contra endeusar terrorista, sequestrador porque estavam combatendo pela liberdade, porque não estavam. E satanizar o torturador. O torturador é um criminoso que vê a pessoa a quem ele está fazendo mal e ele causa mal a essa pessoa que é inimiga dele, em seus ideais. O terrorista bota bomba no cinema, no saguão do aeroporto e mata mulheres, crianças e até mulheres grávidas.
Como a bomba do Riocentro que foi levada pelo Exército?
ROCHA PAIVA: A bomba do Riocentro, o caso foi reaberto em 1999 em pleno regime democrático de direito. Foram apontados cinco responsáveis. O Juiz mandou arquivar por falta de provas.
Explodiu no colo do sargento, general
ROCHA PAIVA: Quem é que pode dizer o que aconteceu?
Todos os indícios. O senhor acha então que o Capitão Wilson, o sargento não estavam levando a bomba?
ROCHA PAIVA: O processo foi arquivado por falta de provas. A senhora acha que foram eles?
Sim, claro!
ROCHA PAIVA: Eu não tenho provas.
O senhor acha que essa sua opinião, essas suas opiniões, por exemplo contra a comissão da Verdade, são compartilhadas por pessoas que estão na ativa?
ROCHA PAIVA: Olha, eu não tenho dúvida de que é geral. Agora, a gente tem que ver o seguinte: o que um militar na ativa pode falar? Ele não pode falar contra o governo. Agora, digo para a senhora o seguinte: chefes militares cultuam hierarquia, disciplina e também justiça. Ante a iminência de uma injustiça que vai ser perpetrada contra seus subordinados, ele tem obrigação moral e funcional de - com franqueza, disciplina, sem alarde e dentro da lei - levar a sua posição a seus comandantes superiores. Se eles não fizerem isso, eles não são dignos de serem chefes. E o que está na iminência de acontecer? Com a comissão da Verdade, aqueles agentes do Estado, tenham ou não torturado - porque o que a Comissão da Verdade quer é expor a cara de todo mundo que tenha participado dos órgãos de inteligência, de informação; eles querem expor todo mundo - então, tenham ou não torturado. vai ser execrado. Eles têm obrigação moral de...esse pessoal entrou ali, muita gente combateu por ideal e se sacrificou. Se alguns cometeram deslizes, foram anistiados, assim como foram anistiados os terroristas, sequestradores e assassinos.
O que o senhor acha que os comandantes militares têm que fazer a respeito?
ROCHA PAIVA: Eles não têm que sair pra imprensa pra falar nada. O que acho que eles estão fazendo - eu não posso dizer, estou dizendo pela formação que eu tive - eles estão levando essa preocupação à presidente da República. Porque eu acho que o homem livre é escravo da sua consciência e a consciência é juíza perene de sua vida. Ele não é escravo de cargos e posições. Ele arrisca cargos e posições por aquilo que ele acredita que é seu ideal. Dentro da lei.
Dentro de uma instituição tão respeitável quanto o Exército Brasileiro houve tortura. Há várias provas. E o senhor mesmo disse que é desvio. Se é desvio, o Exército não deveria ser o primeiro a querer que fossem punidos para que tudo aquilo ficasse em pratos limpos?
ROCHA PAIVA: Olha, o que passou e foi anistiado não pode ser retocado. Veja bem: anistia não é um instrumento jurídico. É um instrumento político. No Brasil, a sociedade apoiou o governo no combate à luta armada. Anistia não foi para reconciliar a nação. A nação estava do lado do governo senão nós teríamos hoje talvez umas Farc aqui, ou um Sendero Luminoso. Para que veio a anistia? Veio para neutralizar radicas à esquerda e à direita, que poderiam prejudicar a redemocratização.
General, anistia estabelece que não pode haver punição. Mas ela não impede que se busque a informação. E não é isso que a Comissão da Verdade está fazendo?
ROCHA PAIVA: Nunca no Brasil, na História do Brasil, se precisou de Comissão da Verdade para saber o que aconteceu na ditadura Vargas. Historiadores fazem isso. Se quiser investigar crimes que tenham ocorrido, independente de anistia, faz-se uma investigação policial. A presidente chama a Policia Federal, o Ministério Público, quem quer que seja, e manda investigar.
Toda a vez que se pede aos comandantes militares documentos, eles dizem que os documentos foram destruídos. E aí será que não tem documentos?
ROCHA PAIVA: Agora, vamos ver o seguinte: existem normas de controle de documentos. sigilosos. Então, você pega e tem um inquérito. Os presos ficavam em organizações de Doi-Codi. Não eram tanto dentro de quarteis. Alguns ficavam dentro de quarteis. Eu mesmo quando cheguei a aspirante tinha preso no quartel que eu cheguei. Era preso normal. Levava a vida dele normal.
Levavam a vida normal não, estavam presos.
ROCHA PAIVA: Sim, vida de preso normal....
A Comissão quer buscar informação. Não é importante buscar a informação?
ROCHA PAIVA: Ah, sim. A senhora falou dos documentos. O que acontece? Faz-se um inquérito no quartel. Terminado aquele inquérito, ele vai para o STM. Chegando no STM, aquele inquérito está lá arquivado. No quartel, fica uma cópia. Essa cópia, a partir de determinado momento, é destruída. E esses inquéritos foram feios até 1979. Nenhum documento confidencial passa de ...naquele tempo eram dez anos.
Então, como saber o que aconteceu com Rubens Paiva, por exemplo?
ROCHA PAIVA: Se foi feito algum documento...
Ele morreu dentro de um estabelecimento militar. Ninguém tem registro?
ROCHA PAIVA: A senhora está dizendo, que ele morreu dentro de um estabelecimento militar. Eu não sei. A senhora tem certeza?
Ele foi visto lá pela última vez.
ROCHA PAIVA: Foi visto. Não estou dizendo que é o caso dele, mas tem gente que hoje em dia é considerado desaparecido, porque estava na luta armada, queria sair da luta armada, estava preso, recebeu documentação e mudou de vida. Então, alguns desaparecidos não querem nem aparecer. Um apareceu, que estava lá na Noruega, quando soube que ia receber dinheiro. Era um desaparecido que apareceu. Dona Miriam, veja bem...
No caso do Rubens Paiva, foi aberto um IPM para tentar descobrir que foi que aconteceu. Foi em 1986, mas ele foi arquivado sem que houvesse uma investigação séria. Portanto, o caminho de se fazer apenas a investigação às vezes não dá certo. Não é melhor criar uma comissão, como outros países fizeram?
ROCHA PAIVA: Os outros países fizeram comissões da verdade dentro de outros quadros. Veja bem: a  comissão da verdade emblemática é a da África do Sul, certo? Ela é feita antes de conceder a anistia. E pra receber a anistia, tinha que passar na comissão. E eram anistiados os dois lados., que confessassem seus crimes e relacionassem seus crimes a motivações políticas. Os dois lados foram anistiados. O Pacto de Moncloa, na Espanha, também anistiou os dois lados. Eu não vejo necessidade, depois de 30 anos, é só investigação policial. Porque chamar lá alguém pra ser ouvido: Ainda mais, veja bem: se eu sou um ex-agente do Estado e sou chamado na comissão da verdade, sabendo que alguém pode mover uma ação civil indenizatória contra a minha pessoa, estando eu anistiado, eu vou chegar lá e vou dizer que não sei de nada. Eu vou falar por quê? Qual a motivação que eu tenho? Se eu abrir a minha boca, vou ser penalizado. Depois de 30 anos? Então isso não tem explicação...
O senhor acha justo que os torturadores não sejam conhecidos, não sejam punidos, sequer se informe sobre os crimes que eles praticaram ou que tenham que dar explicação sobre pessoas que desapareceram quando estavam sob a custódia do Estado?
ROCHA PAIVA: Faça-se uma investigação, e não comissão da verdade. Eu não vejo porque eles têm que aparecer agora, porque eles estão anistiados. Por que não tem que aparecer também quem sequestrou, quem planejou? Se uma autoridade, hoje, tiver participado; até a presidente Dilma,tiver participado, seja diretamente ou indiretamente, que aí é co-responsável, de um crime que tenha deixado sequelas com vítimas, vai haver a comissão da verdade? A presidente vai aparecer?  É isso que a senhora quer depois de 30 anos?
O senhor não acha que o país tem que olhar para esse passado?
ROCHA PAIVA: Então vamos olhar para os dois lados do passado. Se a presidente, se o senhor Franklin Martins e gente que a gente não sabe que participou do planejamento. Da execução, a gente já sabe, mas do planejamento e do apoio não. Quem é que participou dos comitês dos julgamentos que resultaram no justiçamento, assassinato dos próprios companheiros, quem participou? Por que eu não posso saber? Eu só vou ter que saber quem for agente do Estado? Eu não acho isso justo...
General, os senhores tiveram 25 anos de poder. Eles eram seus inimigos. Se vocês não têm a informação, é porque a informação não existe. Ou vocês não foram capazes de apurar.
ROCHA PAIVA: A informação pode ser, a senhora não quer que apure? Então, eu quero que apure o outro lado também. A senhora está sendo maniqueísta, a senhora está sendo facciosa já que vai haver a comissão da verdade, veja bem - eu sou contra a existência - mas agora que vai haver que investigue os dois lados. Quem eram os terroristas mataram no Araguaia?
E quem matou as pessoas, os guerrilheiros que estavam no Araguaia?
ROCHA PAIVA: Vamos botar na comissão da verdade todos. Os dois lados. A senhora está insistindo que se faça um lado. Estou dizendo: vamos os dois. A senhora está sendo facciosa, eu não. Eu estou dizendo que eu quero os dois lados. A senhora está dizendo que é um só.
Os militares assumiram o poder e usaram o Estado contra as pessoas. Ninguém jamais foi preso, ninguém jamais foi condenado, o Exército nunca reconheceu quem torturou. O senhor não acha que quando se faz isso não pode ficar claro o conluio do Exército com torturadores?
ROCHA PAIVA: Quem é que vai afirmar quem torturou? Outra coisa: a senhora falou que o Exército atuava contra as pessoas. Não. O Estado, e não era só o Exército, o Estado, seus órgãos policiais atuaram, não  foi contra pessoas, tanto que a população apoiou quem? O governo. A população não apoiou a luta armada. Eles viviam homiziados, escondidos, porque, se aparecessem na rua, às vezes, eram denunciados. Tinham que estar todos camuflados, escondidos. Por que? Porque a população apoiou, apoiou fortemente o Estado contra a luta armada. A senhora fala em ditadura, tortura, me diga uma democracia, um organismo internacional que tenha reconhecido qualquer grupo da luta armada como estando defendendo a liberdade, ou representando parte do povo brasileiro. Não tem. Eu fui observador militar da ONU em El Salvador e a FMLN foi reconhecida; os representantes dos vietcongs, nas conversações em Paris, existiam. E era uma luta armada. Agora, no Brasil, não houve nenhum grupo. A senhora fala em ditadura, eu falo em regime autoritário. Regime autoritário, Hannah Arendt diferenciou bem de regime totalitário. Regime autoritário limita a liberdade individual, limita a liberdade de expressão, limita a liberdade política. Mas no Brasil nós tínhamos Grupo Opinião de Teatro, tínhamos peças teatrais que condenavam a ditadura, tínhamos músicas de protesto, tínhamos festivais da canção, tínhamos o Pasquim, tinhamos o Febeapá.
No Pasquim todo mundo foi preso!
ROCHA PAIVA: É o que digo, limitada a liberdade. Não deixaram de existir. O Pasquim deixou de existir depois do regime militar. Então, eles existiam. As livrarias vendiam livros de Marx, Engels, Lênin, Trotsky. Que ditadura totalitária é essa? Existia uma oposição que disputava eleição, ganhava e perdia eleição, que tinha espaço nos jornais. Eu via Ulysses Guimarães sempre falando e criticando. Que ditadura totalitária é essa?
Então, o senhor concorda com os 25 anos de regime militar...
ROCHA PAIVA: Eu concordo com os 25 anos, sem dúvida! Podia ser talvez menos um pouco.
O senhor começou a sua carreira exatamente no ano em que aumentou a repressão.
ROCHA PAIVA: Aumentou a luta armada! Aumentou a luta armada. A repressão é consequência da luta armada.
Com o AI-5, o regime se aprofundou e aumentou, portanto, os casos de desaparecidos e os casos de mortos, o caso Rubens Paiva, por exemplo, acontece em 71. O senhor fez a carreira nessa época, nunca ouviu sequer falar que havia tortura dentro dos...
ROCHA PAIVA: Miriam, sempre se falou. Agora, me diz uma coisa: quando é que não houve tortura no Brasil? Houve tortura em Getúlio? Houve. Houve tortura no tempo da democracia? Houve. Houve tortura no regime militar? Houve. Está havendo tortura agora? Está. O Brasil é condenado na ONU, ou é acusado na ONU, por violação de direitos humanos por agentes do Estado, do Estado democrático de direito. A senhora quer fazer um cálculo comigo? A senhora pega o livro "Brasil, nunca mais". Arquidiocese de São Paulo. Insuspeita. Arquidiocese de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns. Fizeram pesquisas nos arquivos do STM. Levantaram, antes de 1995, portanto antes da lei de indenização Bolsa-ditadura. Levantaram 1.918 torturados. Se a senhora dividir isso por dez anos, e eu só estou considerando o tempo da luta armada, porque se for 20 anos é muito menos. Dez anos de luta armada, doze meses no ano e trinta dias, a senhora vai ter menos de um torturado por dia. Aí, a senhora vai para depois de 1995, o livro do Chievenatto, em 2004, aí já tinha saído a Bolsa-ditadura. Portanto, todo mundo que entrou em Doi-Codi, tá certo?, Até pra prestar um depoimento, por ser testemunha está dizendo que foi torturado. Aí esse número de 1918, depois que sai o Bolsa-ditadura, sobe pra 20 mil torturados. Se a senhora fizer essa mesma conta que eu fiz, a senhora vai chegar a seis torturados por dia. Então uma média de meio torturado por dia, se é que se pode se dizer assim, e seis. A senhora vai ter em torno de quatro torturados por dia por conta da luta armada. Miriam, se nós formos, agora, em qualquer presídio nesse Brasil inteiro, vamos encontrar muito mais gente sendo torturada agora. Por que ninguém se sensibiliza com isso? Sabe por quê? Por que quem está sendo preso agora, está sendo torturado não defende ideia marxista-leninista, não é da classe média, não é filho de deputado, não é artista. A esquerda radical, revanchista, hipócrita e incoerente se solidariza com esse pessoal do outro tempo. E olham que eram quatro por dia, no máximo, tá certo? Eu não estou tirando a hediondez do crime! Eu estou mostrando que isso está acontecendo agora, e ninguém se incomoda. Esses que estão sendo agora torturados, não vão ser indenizados, como foram aqueles que foram presos no tempo do regime militar. Então, isso é injustiça.
O senhor não acha que é mais inteligente da parte das Forças Armadas admitirem que houve o erro? Até para preservar o nome da instituição, dizer que a instituição, como um todo não concordava com os desvios que aconteceram no Doi-Codi, na Polícia do Exército, em todos esses aparelhos de tortura instalados dentro das organizações ?
ROCHA PAIVA: Eu não vejo por  que pedir perdão, se não houve nenhuma cisão social remanescente do regime militar. Quando saiu o regime militar, que começaram a fazer pesquisas, as Forças Armadas já estavam no topo das instituições de maior credibilidade do país, acima até da imprensa. Então, por que essa instituição precisa pedir perdão?
Porque é crime general, porque é crime.
ROCHA PAIVA: Não, não. Foi anistiado, foi anistiado, eu insisto nisso. Foi anistiado, então parou aí. Vamos investigar o que aconteceu? Vamos. Mas está anistiado. Não tem que pedir perdão coisa nenhuma. É interessante a hipocrisia da nossa sociedade. Bate palma e aplaude o "Tropa de Elite". Eu acho hipócrita. Eu faço a pergunta assim, de chofre: se um filho seu ou um neto seu for sequestrado, e a policia botar a mão no sequestrador que sabe onde está o esconderijo dele e aí? ... A senhora demorou a responder.
Estou esperando até onde o senhor vai ...
ROCHA PAIVA: A senhora demorou a responder. Então o que eu digo é hipocrisia.
Não estou aqui para responder. Estou para fazer perguntas. Eu pergunto, o senhor responde.
ROCHA PAIVA: Não é um programa de debate?
Não. Eu não estou debatendo com o senhor. Estou apresentando questões que são colocadas por pessoas que discordam do senhor...
ROCHA PAIVA: Eu estou respondendo. Eu estou, num programa de entrevistas, fazendo uma pergunta. Não pode? Não pode?
Estou querendo saber sobre o Exército. Se não é melhor ele admitir que houve desvio, houve tortura. E, portanto, ele não torturará mais...
ROCHA PAIVA: Ô, Miriam...Vai na livraria, você, lógico que já leu...Dezenas de livros que contam sobre tortura. Precisa admitir? Precisa admitir? Tá lá escrito. Quem quiser, que acredite. Quem não quiser, não acredite. Certo? Então. Tá escrito. Não precisa admitir. A sociedade cobraria das Forças Armadas, se ela não tivesse colocada as Forças Armadas no topo das instituições de credibilidade. Então, se houve violações naquele momento, a sociedade já perdoou. Se não ela não estaria lá no topo das instituições de credibilidade, acima até da imprensa...
Eu acho que agora é um outro Exército...
ROCHA PAIVA: Não. É o mesmo.
É o mesmo Exército que torturou?
ROCHA PAIVA: A senhora que está falando em tortura. Eu estou dizendo o seguinte: Quem evoluiu, foi o país. E o Exército evoluiu junto do país. Todos os presidentes militares falavam de redemocratização e admitiram que era um Estado de exceção. Eu listo para a senhora 16 crises político-militares envolvendo militar, partido político, o Exército dividido. De 22 a 64, existem 16 crises militares. Aí vem 1964, revolução de 31 de março. Luta armada. Dez anos depois, redemocratização  e abertura. Me diga uma crise político-militar que teve no país depois disso. Por que? Porque a Revolução se encarregou de separar o militar da política, por isso automaticamente reforçou as instituições do país, os poderes nacionais e nunca mais houve uma crise político-militar no país. Então, um dos grandes feitos do regime militar foi afastar as Forças Armadas da política e isso é uma das causas da nossa democracia estar estável hoje.
Eu queria que o senhor fizesse uma reflexão sobre o fato de que, nos outros países, houve punição, prisão de torturador e até responsabilidade de comandantes, como, por exemplo, o general Videla, que foi presidente da Argentina, ou Pinochet, que foi presidente do Chile. Eu queria que o senhor falasse sobre isso. Por que eles usaram esse caminho e nós, não?
ROCHA PAIVA: Primeiramente, nos três países, tanto Argentina, Uruguai e Chile, eles cometeram uma falha. A anistia lá não foi ampla, geral e irrestrita. A anistia lá foi para os agentes do Estado. Então, com isso, a anistia se esvaziou. Só que no Uruguai fizeram um referendo e o povo uruguaio foi a favor da manutenção da anistia. Na Argentina e no Chile, a luta armada foi muito mais violenta que no país, do que no Brasil. Então, são condições diferentes, são países diferentes. São países com a veia espanhola muito radical e muito açodada e são condições diferentes do país. Cada país escolhe o seu caminho.
O que o senhor acha da Operação Condor que unia os países do Cone Sul, inclusive o Brasil, em troca de prisioneiros, em troca de informação, em troca de técnicas de tortura? E também o que acha da operação Oban, que uniu líderes empresariais com as Forças Armadas?
ROCHA PAIVA: A senhora está falando em convênio de países para enfrentar problemas comuns? Tinha um convênio entre os países da cortina de ferro para enfrentar problemas comuns. Os Estados Unidos têm a Otan. Hoje, os Estados Unidos têm convênios com vários países para a questão do terrorismo. Os grupos de esquerda armados, revolucionários, tinham ligações internacionais também; então, é mais que natural, essas ligações internacionais para troca de informações, certo? Para trocar informações operacionais e também da parte doutrinária.
O senhor acha que a Operação Condor foi apenas um acordo entre os países? O senhor acha normal?
ROCHA PAIVA: Ah, sim, isso existe hoje, isso existe hoje. Nós temos reuniões bilaterais de inteligência, de doutrina. E não é só reunião bilateral no campo militar, não. Tem relação bilateral no campo da indústria, do comércio, certo? Isso é normal entre os países. E eles enfrentaram problemas comuns. Os grupos armados de esquerda no Brasil, eles também tinham ligações internacionais, só que isso aí ninguém fala.
E a Oban?
ROCHA PAIVA: A Oban eu não tenho conhecimento. Eu sei que...Eu não sei nem em que ano começou. Sinceramente,se eu soubesse eu diria.
O Vladimir Herzog era diretor de uma emissora, não era guerrilheiro. Ele foi se apresentar para depor e morreu.
ROCHA PAIVA: E quem disse que ele foi morto pelos agentes do Estado? Isso há controvérsias. Há uma controvérsia quando a isso aí. Quem disse que ele foi morto pelos agentes do Estado? Ninguém pode afirmar. 
ROCHA PAIVA: Se não foram os militares que mataram Vladimir Herzog, por que os militares que estavam lá naquele momento não aparecem na comissão da Verdade?
ROCHA PAIVA: Existe um inquérito e está escrito no inquérito. Chame os oficiais que estão ali. Se é que tinha algum oficial, se não era gente da Policia Federal, da Policia Militar ou da Policia Civil. Chame a pessoa e consulte. Agora, chame também quem pode ter mandado matar ou quem pode ter dado a ordem para assassinar o capitão Chandler, assassinado na frente do seu filho. Chegaram na cabeça dele e deram mais de vinte tiros na cabeça dele. Isso na frente do filho dele. Quem fez, a gente sabe. Mas quem planejou e apoiou. A gente não sabe, precisa saber. Foi a ALN. Quem era da ALN? O nosso senador Aloysio. O senador que foi relator da Comissão da Verdade, do projeto de lei. Aloysio Nunes Ferreira. Ele era da ALN. Será que ele não tem alguma coisa? Vamos chamar o senador na Comissão da Verdade? Sim. Por que não? Vamos chamar a presidente Dilma? Ela era da VAR-Palmares. E a VAR-Palmares foi a que lançou o carro-bomba que matou o soldado Mario Kozel Filho. Ela era da parte de apoio. Será que ela participou do apoio a essa operação? A comissão da Verdade não vai chamá-la, por quê? Entende? Minha posição é essa.


Monday, February 14, 2011

As Farc, o PT e os objetivos de longo prazo do Foro de São Paulo

As Farc, o PT e os objetivos de longo prazo do Foro de São Paulo

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Cuba, 2001. Lula discursa no encontro do FSP
Nota Editoria MÍDIA@MAIS:
No momento em que os destinos da política nacional mais uma vez serão dedicidos através das urnas - ou assim, pelo menos, a opinião pública nacional é levada a crer -, com a eleição presidencial que se aproxima, o PT e vários outros partidos e agremiações de esquerda se reunem na Argentina, no XVI Encontro do Foro de São Paulo. O que pouca gente parece  entender, e a indiferença ou cumplicidade daqueles que teriam por obrigação informar o público corretamente não contribui em nada para ajudar a esclarecer, é que os verdadeiros rumos da política nacional podem estar sendo definidos nessa obscura reunião de extremistas de esquerda, muitos dos quais são membros do partido que governa o Brasil, um evento que conta com a chancela do  governo brasileiro, como prova a leitura de uma carta assinada pelo próprio presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva.
Mas, afinal, o que é o Foro de São Paulo e quais as suas implicações na política nacional? Como essa organização atua no Brasil, e quais os interesses nela envolvidos? Para responder isso o MÍDIA@MAIS disponibiliza para o público um relatório especial sobre o assunto, tentando condensar o máximo de informações sobre o assunto e torná-lo inteligível ao leitor alheio ao linguajar da esquerda, muitas vezes cifrado, tendo como destinatários apenas seus pares.
Esperamos que aqueles que leiam este texto percebam como os fatos aqui descritos poderão exercer forte influência sobre os rumos do país, que poderá evoluir, dependendo do que acontecer nos próximos meses, para um regime autoritário de fato, claramente calcado nos modelos cubano e venezuelano.
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OBS: A compilação dos documentos citados nesse artigo pode ser baixada clicando-se aqui.
A ligação entre o Partido dos Trabalhadores (PT) e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) está explicitamente estabelecida através da cooperação de ambas as instituições no âmbito do Foro de São Paulo, agremiação de organizações da esquerda radical latino-americana que, segundo palavras do próprio Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em fonte disponível em site oficial do Palácio do Planalto, tem um papel central na integração e apoio mútuo dessas forças no subcontinente e seu avanço nos poderes executivo e legislativo de países da região.
Diante da denúncia dessa arregimentação por um número reduzido porém insistente de pessoas e pequenos órgãos de mídia, criaram-se entraves técnicos para o acesso às páginas comprobatórias do vínculo PT-Farc nos sítios oficiais das organizações participantes do citado “Foro”. No entanto, as fontes ainda disponíveis e aquelas que tiveram conteúdo acessado por outros meios tornam possível não só oferecer um corpo de evidências suficiente para atestar a veracidade da acusação do vínculo criminoso apontado pelo candidato à Vice-Presidência Índio da Costa, bem como permitem requerer ao Poder Judiciário o desbloqueio do acesso às fontes indicadas e a quaisquer outras de conteúdo semelhante, bem como a busca e apreensão da documentação material e eletrônica comprobatória em posse das organizações e indivíduos explicitamente envolvidos, evitando-se, com essa medida, o risco da derrocada do estado de direito e da perda da estabilidade institucional no país.
A gravidade da situação não está, de forma alguma, sendo exagerada. O maior erro que se pode cometer na análise dos fatos que serão demonstrados abaixo é compreendê-los dentro de esquemas explicativos com base em acontecimentos históricos anteriores, tomando o processo de evolução da social-democracia européia como uma constante histórica. A relativa moderação das políticas do Governo Lula, se comparadas àquelas que o PT tradicionalmente pregou, não indica uma acomodação progressiva ao jogo democrático e a submissão às instituições características das nações ocidentais desenvolvidas. A chave de interpretação não pode ser a mesma, pois as condições são outras, o contexto é diferente.
 
O Foro de São Paulo foi formado para viabilizar a entrada da esquerda radical no processo democrático eleitoral, já que, como explica seu fundador, Luiz Inácio Lula da Silva, com a Queda do Muro de Berlim as condições já não se apresentavam como na época da Guerra Fria. Fazia-se necessário às forças revolucionárias se apresentarem de outra forma para conquistarem o poder e, aí então, fazerem as mudanças que defendiam. Não houve, portanto, uma mudança de finalidade, a exemplo do que ocorreu na esquerda européia, mas de estratégia para a tomada do poder hegemônico.
 
É verdade que o Presidente Lula expressou publicamente sua preferência de que as Farc se tornassem um partido político, mas o fato de a organização manter a atuação como guerrilha jamais foi motivo de repreensão pública nas resoluções do Foro de São Paulo. O terrorismo das Farc é até mesmo justificado apelando-se ao contexto colombiano, da mesma forma com que a candidata Dilma Rousseff justifica sua atuação como terrorista.
 
 
Deve-se enfatizar que o que foi dito acima não é uma mera interpretação possível, tão válida como a da “europeização da esquerda” ou qualquer outra. É a situação conforme descrita pelos próprios envolvidos e reiterada nas "Resoluções Aprovadas no 4º Congresso do PT", em fevereiro de 2010, que enfatizam a premência da consolidação da hegemonia do Partido através da eleição de Dilma Russeff e a subsequente convocação de uma nova assembléia constituinte, o que inevitavelmente levará a um cenário de polarização da sociedade brasileira - a exemplo do que ocorre na Venezuela sob a aprovação do Foro de São Paulo - através de mudanças institucionais radicais chanceladas pelo uso abusivo do instrumento do plebiscito, abrindo-se questões complexas para consulta e referendo a um povo manipulado pelos “programas sociais” do atual Governo e ignorante dos vínculos e das verdadeiras intenções do Partido dos Trabalhadores.
 
Para demonstrar de forma inequívoca a realidade do quadro descrito, foram utilizadas abaixo algumas fontes da rede mundial de computadores que já não estão mais disponíveis, mas cujo conteúdo pode ser parcialmente resgatado através dos instrumentos da “Internet Archive”, uma organização não-governamental que procura preservar a memória da internet. Para tanto, a ONG recebe apoio de respeitadas instituições, como o Smithsonian Institute e a Biblioteca do Congresso Americano, o que é suficiente para atestar a confiabilidade do projeto. Ela mantém a Wayback Machine, um recurso que permite a visualização do conteúdo antigo de milhões de páginas da internet.  Foi através dele que conseguimos resgatar o texto de páginas já não mais acessíveis, mas cujo conteúdo será aqui reproduzido.
 
A exposição que se segue está dividida em 4 partes:
 
1. em “O Presidente, o PT e o Foro de São Paulo”, será demonstrada a importância do Foro de São Paulo para a articulação da esquerda radical latino-americana, caracterizando-se, no caso brasileiro, como uma instância paralela mas integrada ao Poder Executivo. Utilizando-se as palavras do próprio Presidente Lula, será fornecido um breve histórico da formação da entidade, o contexto em que foi gestada e sua importância em acontecimentos políticos recentes na região, sendo representada, em nossa política externa, dentro do Poder Executivo, pela figura de Marco Aurélio Garcia. Também será destacada a importância dada ao Foro de São Paulo nas resoluções do 3º Congresso do PT, em 2007;
 
2. em “O Foro de São Paulo, as Farc e o PT”, será destacada a participação das Farc no FSP e a relação entre a organização colombiana e o PT;
 
3. em “Apagando as Fontes”, será abordado como as instituições e indivíduos envolvidos com o Foro de São Paulo ocultaram as fontes antes disponíveis em seus sítios na internet, o que evidencia a tentativa de esconder informações que preferem não ver divulgadas;
 
4. em “Estratégia Revolucionária”, através de declarações de importantes membros do PT e outras fontes, ficará evidente como a imagem de moderação que o Partido adotou há alguns anos esconde um projeto revolucionário mais radical através da tomada do poder pela via democrática, em conformidade com o receituário de Lênin, a despeito da forma como essa moderação estratégica possa parecer aos olhos de setores mais afoitos do PT.
 
Esperamos, com essa exposição, ajudar a uma melhor compreensão da natureza do Partido dos Trabalhadores e seu projeto hegemônico revolucionário, que já está sendo implementado através da via eleitoral. É nesse contexto que deve ser interpretada a política externa do Governo Lula, a integração regional que promove, o apoio a Chávez e outros líderes da esquerda latino-americana, seu dissimulado apoio às Farc - o que não o tem impedido de se alinhar a Chávez em contraposição ao governo colombiano -, e as propostas de controle da imprensa e outros setores da sociedade.
 
 

1. O Presidente, o PT e o Foro de São Paulo

1A Fotos que documentam a participação de Luiz Inácio Lula da Silva em duas edições do Foro de São Paulo.


1Aa Em 2001, quando o FSP ocorreu em Havana, Cuba:
 
 
1Ab Em 2005, quando ele voltou a ocorrer na cidade de São Paulo:
 

1B Referências do Presidente à importância do Foro de São Paulo na articulação da esquerda latino-americana.

1Ba “Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no ato político de celebração aos 15 anos do Foro de São Paulo”, na cidade de São Paulo, Brasil, em 02 de julho de 2005.
 
A transcrição integral se encontra disponível no site oficial da Secretaria da Imprensa da Presidência da República Federativa do Brasil, neste endereço: http://www.info.planalto.gov.br/download/discursos/pr812a.doc
 
"Em função da existência do Foro de São Paulo, o companheiro Marco Aurélio tem exercido uma função extraordinária nesse trabalho de consolidação daquilo que começamos em 1990... Foi assim que nós, em janeiro de 2003, propusemos ao nosso companheiro, presidente Chávez, a criação do Grupo de Amigos para encontrar uma solução tranqüila que, graças a Deus, aconteceu na Venezuela. E só foi possível graças a uma ação política de companheiros. Não era uma ação política de um Estado com outro Estado, ou de um presidente com outro presidente. Quem está lembrado, o Chávez participou de um dos foros que fizemos em Havana. E graças a essa relação foi possível construirmos, com muitas divergências políticas, a consolidação do que aconteceu na Venezuela, com o referendo que consagrou o Chávez como presidente da Venezuela. Foi assim que nós pudemos atuar junto a outros países com os nossos companheiros do movimento social, dos partidos daqueles países, do movimento sindical, sempre utilizando a relação construída no Foro de São Paulo para que pudéssemos conversar sem que parecesse e sem que as pessoas entendessem qualquer interferência política ."
 
1Bb “Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na cerimônia de formatura da Turma de 2002 do Programa de Formação e Aperfeiçoamento do Instituto Rio Branco, no Palácio Itamaraty, 01 de setembro de 2005”. Neste discurso o Presidente caracteriza o FSP mais claramente como uma instância de exercício de poder paralela mas integrada ao atual Poder Executivo, o que tipifica uma indevida e perigosa mistura de Estado e Partido, rompendo assim com os preceitos básicos essenciais do estado de direito.
 
 
Eu me lembro que quando eu chamei o Celso Amorim e, logo depois, convidei o Marco Aurélio para trabalhar como meu assessor, não faltaram pessoas que tentaram criar disputas de que eu tinha um chefe das relações internacionais e um assessor especial e que, portanto, ia ter um confronto entre os dois. Saíram matérias, no começo precisou-se explicar, e eu acho que é importante dizer: a relação entre Celso Amorim, que cumpre a função institucional de ser ministro das Relações Exteriores, e a relação com Marco Aurélio, que cumpre uma outra função tão nobre quanto se tivesse o título de ministro ou de embaixador, que faz um trabalho que possivelmente qualquer um outro e até eu, teria dificuldade de fazer, porque o Marco Aurélio vem de uma relação com a esquerda da América Latina e a esquerda européia, que eu acredito que poucas pessoas tiveram o prazer de dizer isso em todo o tempo em que ele foi secretário de Relações Internacionais do PT. E, para nossa felicidade, muitos companheiros que eram militantes de esquerda na década de 80 estão se transformando em governo.
 
Então, nós passamos a ter uma relação privilegiada com presidentes e com ministros que eram militantes, junto conosco, do Foro de São Paulo, tentando encontrar uma saída democrática para a esquerda na América Latina.
 
Essa função de assessor especial é uma função que permite, ao mesmo tempo, a gente ter uma relação de alto nível com o presidente de um país e, ao mesmo tempo, ter uma relação de alto nível e de confiança com a oposição daquele país, com os sindicatos daquele país, com os grupos indígenas, com o movimento social, porque é uma relação construída ao longo de 15 ou 20 anos. Não é uma coisa que aconteceu porque alguém tem um cargo, é uma coisa que aconteceu porque nós temos uma relação.
 
Então, eu quero, Celso Amorim, falar isso porque já estamos com 32 meses de governo e eu acho que você e o Marco Aurélio deram uma dimensão extraordinária de que é possível a gente construir não apenas a grande diplomacia brasileira, mas é capaz de fazer mais do que isso, a gente é capaz de ir à Bolívia conversar com os presidentes, conversar com os senadores e depois chamar o Evo Morales e conversar com ele com a mesma respeitabilidade, com o mesmo grau de reconhecimento, e assim vale. Foi isso que permitiu que a gente conseguisse criar o Grupo de Amigos para ajudar a Venezuela, porque ao mesmo tempo que a gente conversava com o Chávez, ao mesmo tempo que a gente conversava com a direita na Venezuela, a gente conversava com os setores de esquerda da Venezuela, para que houvesse essa compreensão.
 
O mesmo aconteceu com o Equador, o mesmo aconteceu com o Uruguai, é uma coisa que eu acho extraordinária, essa relação entre vocês dois e a possibilidade de ver a América do Sul numa ascensão de consolidação da democracia, tal como estamos vivendo hoje...
 
1Bc “Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no encerramento do Encontro de Governadores da Frente Norte do Mercosul, em Belém, Pará, 06 de dezembro de 2007”.
 
 
...Primeiro, quero falar um pouco do Mercosul e falar um pouco da nossa América do Sul.
 
Meus companheiros representantes dos países da América do Sul, eu tive a felicidade de, em 1990, convocar – se eu não falei dos senadores, eu quero cumprimentar os senadores aqui presentes – eu tive o prazer de convocar a primeira reunião da esquerda na América Latina, em 1990. Eu tinha terminado a eleição de 89, nós tínhamos saído muito fortalecidos do processo eleitoral e era preciso, então, fazer um chamamento a todas as organizações de esquerda que militavam na política da América Latina, para que pudéssemos começar a estabelecer uma estratégia de procedimento entre a esquerda da América Latina.
 
Eu me lembro, Chacho, como se fosse hoje, era época da Copa do Mundo de 1990, e a reunião foi feita em São Paulo, por isso é que ficou constituído o Foro de São Paulo. Só da Argentina tinha 13 organizações políticas, 13 grupos de esquerda que não conversavam entre si. A única coisa que os unia era o Maradona, naquele momento. A República Dominicana, que é um país pequeno, tinha 18 organizações de esquerda naquele encontro. Parecia, Ana Júlia, o PT.
 
Foi uma reunião muito difícil porque as pessoas não confiavam em si, cada um desconfiava do outro, cada um era mais revolucionário do que o outro, cada um era mais guerrilheiro do que o outro. E era preciso, então, criar um ponto de equilíbrio para fazer as pessoas entenderem. Eu descobri isso nas eleições de 89, que era possível, com um pouco de organização, o povo chegar ao poder em qualquer país do mundo e em qualquer país da América do Sul.
 
Pois bem, passados esses 18 anos, ou melhor, vamos pegar 14 anos atrás. Nós fizemos uma pequena revolução democrática na América do Sul e na América Latina. Eu, por exemplo, conheci o (Fidel) em um encontro que fizemos em Cuba. Tinha acabado de ser preso por conta do golpe e acabado de ser liberado. Conheci o Chávez em um encontro do Foro de São Paulo, como conheci também o Daniel Ortega, como conheci tantos companheiros da Argentina, do Chile, do Uruguai, do Paraguai, da Bolívia, do Equador, da Venezuela, da Colômbia. Qual é a mudança que houve nesses 18 anos? Olhem o mapa da América do Sul hoje. O que aconteceu na América do Sul é um fenômeno político que, possivelmente, os sociólogos levarão um tempo para compreender por que aconteceu tão rápido a mudança que houve, uma mudança extremamente importante.
 
Eu lembro que quando o companheiro Duhalde – eu ganhei as eleições de 2002 e o primeiro país a visitar foi a Argentina – falou assim para mim: “Lula, eu vou eleger”... o Menem estava se metendo a ser candidato outra vez, e não sei mais quem, tinha até corredor de automóvel que ia ser candidato na Argentina. E o Duhalde falou: “Lula, nós vamos eleger aqui o Kirchner”. Eu perguntei: quem é Kirchner? Ele falou: “É o governador de Santa Cruz. Ele não é conhecido aqui em Buenos Aires, mas nós vamos elegê-lo”. Pois bem, seis meses depois o Kirchner era presidente da Argentina. Depois foi um processo, com Tabaré; depois foi um processo, com Nicanor Duarte, no Paraguai; depois foi um processo no Equador, que não deu certo no primeiro momento, mas deu certo no segundo momento, com Rafael Correa. O Chávez era o único presidente até então existente, na América do Sul, com cara progressista, com compromissos efetivos com o povo mais pobre.
 
E hoje nós vemos que o que aconteceu na América do Sul está se espraiando para a América Central e para a América Latina, em quase todos os países. Na Guatemala, acaba de ganhar um companheiro, muito companheiro nosso, que participou do Foro de São Paulo. Nós vamos ter eleições agora em El Salvador e, certamente, ganhará um companheiro da Frente Farabundo Marti as eleições para a presidência de El Salvador, pelo menos é o que as pesquisas estão indicando. A eleição no Panamá foi um avanço extraordinário, com o companheiro Torrijos, e assim nós estamos avançando. Há um mapa exatamente antagônico ao mapa que existiu de 1980 a 1990, ou ao ano 2000. Quando o povo teve oportunidade, na América do Sul, ele fez uma guinada completa, ele trocou o neoliberalismo pelo que tinha de mais avançado em políticas sociais em todos os países da América do Sul, e está acontecendo, agora, na América Latina...
 
1Bd “Entrevista exclusiva concedida pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, ao jornalista Joaquín Sola, do programa Desde el Llano, do canal de TV TN, em Buenos Aires, Argentina, em 23 de fevereiro de 2008. Entrevista publicada em 25/02/2008”.
 
 
... Eu não esqueço nunca, quando em junho de 1990, eu fiz em São Paulo um encontro de toda a esquerda latino-americana, para que a gente pudesse começar a discutir a nossa participação no processo democrático.
 
Eu fico muito feliz porque depois daquela reunião, todo ano nós fazíamos um encontro do Foro de São Paulo. A esquerda não conversava entre si. Hoje, em todos os países, com exceção das Farc, aqueles que eram setores de esquerda estão tentando disputar o poder pela via democrática, pelas eleições livres e diretas. Esse é um ganho extraordinário...
 
1Be “Entrevista exclusiva concedida pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, ao jornalista Fernando Morais, para a revista Nosso Caminho, no Palácio do Planalto,DF, em 06 de novembro de 2008”.
 
 
Então, eu penso que está mudando o mundo. E graças a Deus ele começou a mudar na nossa querida América do Sul. Eu fico vendo o Colon eleito lá na Guatemala, eu fico vendo a possibilidade do Maurício ser eleito lá em El Salvador, eu fico imaginando o Torrijos eleger uma outra mulher no Panamá. Logo, logo terá eleições em outros países, e eu estou percebendo que os setores progressistas e de esquerda da América Latina estão fazendo um aprendizado extraordinário de como chegar ao poder. E aí eu fico mais feliz porque quando nós criamos o Foro de São Paulo, em 1990, nós tivemos em junho a primeira reunião e a idéia era tentar unificar o comportamento da esquerda na América Latina para que a gente pudesse se organizar em um partido, para que a gente pudesse... naquele tempo tinha muito grupos de luta armada no Brasil, (ou seja), na América do Sul. Hoje, com exceção das Farc, não tem nenhum grupo armado e todo mundo está chegando ao poder pela via democrática. É um avanço extraordinário.
 
1Bf “Entrevista concedida pelo Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, ao final da 5ª Cúpula das Américas, em Porto de Espanha, Trinidad e Tobago, em 19 de abril de 2009”.
 
 
Pode parecer ilusão, mas eu sou um otimista porque como eu já vivi muito tempo de crise aqui na América Latina, como já há muitas décadas eu tinha lido “As veias abertas da América Latina”, como eu vivi na oposição na América Latina, como o Brasil e o PT... Eu e o Marco Aurélio, sobretudo, temos responsabilidade com a organização da esquerda na América Latina, porque criamos o Foro de São Paulo, e hoje, vários companheiros que assumiram a Presidência, eram companheiros do Foro de São Paulo, que participaram desde os anos 90. Então, como eu conheço toda essa gente, eu vou ficando otimista cada vez que eu vejo que a reunião andou um passo. De passo em passo, termina o meu mandato, vem outra pessoa, vai continuar dando passos, aí nós construiremos uma muralha da China aqui na América Latina.
 

1C Referências à importância do Foro de São Paulo no Livro de Resoluções do 3º Congresso do PT, em 2007.

 
 
“A década dos noventa a crise dos países socialistas, cujo auge foi entre o final dos anos oitenta e o início dos anos noventa, impactou fortemente as relações internacionais do PT, consolidou a opção petista por trilhar caminhos próprios no cenário mundial, desenvolvendo relações com todos os partidos democráticos e de esquerda, pertencentes a diferentes tradições.
 
Esta opção pluralista se materializou com força na convocatória das organizações, movimentos e partidos de esquerda da América Latina e Caribenha para uma reunião, em julho de 1990, na cidade de São Paulo. A motivação principal desta reunião foi reunir as esquerdas do continente, para refletir sobre os acontecimentos pós-queda do Muro de Berlim e pensar alternativas ao predomínio das políticas neoliberais executadas por governos como os de Collor, Menem, Fujimori e Salinas de Gortari.
 
A partir da convocatória feita pelo PT, nasceu o que futuramente se chamaria Foro de São Paulo, que ao longo dos últimos 17 anos contou com a participação ativa da Frente Ampla de Uruguai, da Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional (FMLN) de El Salvador, da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) de Nicarágua, do Partido Revolucionário Democrático (PRD do México e do Partido Comunista de Cuba, entre outras forças políticas. Além de participar ativamente do Foro de São Paulo, respondendo por sua Secretaria Executiva, o PT participa da Conferência Permanente de Partidos Políticos de América Latina (COPPPAL) e da Coordinación Socialista Latinoamericana (CSL)”.
 
“...O PT seguiu dando prioridade ao Foro de São Paulo, como instância comprometida com a integração regional, a confraternização, o diálogo, o intercâmbio de experiências, a solidariedade e a unidade de ação de amplos setores da esquerda de nosso continente, sem perder de vista a pluralidade política e a diversidade cultural latino-americana e caribenha”.
 
“Partindo da fraternidade universal dos povos, afirmamos o valor estratégico do internacionalismo. Tal perspectiva ganha força ao pensarmos na multiplicidade de iniciativas em favor de uma nova ordem mundial, constituindo o internacionalismo como fruto de diálogos entre os diversos atores e sujeitos políticos, sociais e culturais.
 
O internacionalismo e a solidariedade internacional incluem as lutas de cunho planetário, em torno da preservação do meio ambiente e da paz mundial. O Foro de São Paulo, a Aliança Social Continental, o Fórum Social Mundial, as iniciativas de integração regional e tantas outras, ao congregar partidos, movimentos e governos (em seus diversos níveis), articulam lutas e demandas locais, nacionais, regionais e mundiais, permitindo tecer alianças rumo a um outro mundo, que pretendemos seja socialista”.           
 
“Atribuições, funcionamento e plano de trabalho da SRI A Secretaria de Relações Internacionais do PT (SRI) tem as seguintes atribuições:
 
...3) fortalecer a presença do PT no mundo, através dos núcleos, da difusão de material partidário, do contato com os meios de comunicação, do envio e recepção de delegações internacionais, da presença partidária em eventos internacionais. Organizar visitas periódicas aos partidos amigos, bem como a países de importância estratégica. Implementar a presença e a atuação sistemática do PT nos países governados por partidos amigos, com destaque para a América Latina e Caribenha. Acompanhar os organismos internacionais que reúnem partidos políticos, com destaque para o Foro de São Paulo;”
 
“A SRI deve organizar uma rotina de viagens internacionais de dirigentes do Partido, com base no plano político aprovado pelo 3º Congresso do PT, dando ênfase para aqueles países governados por partidos de esquerda e progressistas; para aqueles de grande importância estratégica; para aqueles onde a esquerda possui grande força política e eleitoral. Faz parte desta rotina acompanhar as reuniões do Foro de São Paulo e as iniciativas relacionadas a integração continental (Parlamento, Cúpulas sociais, reuniões de chefes de Estado)”.
 
“A SRI, enquanto o PT for escolhido para esta tarefa pelo FSP, será encarregada de manter a secretaria executiva do Foro de São Paulo...
 
Desde sua criação, a SRI já foi dirigida por: Luís Eduardo Greenhalgh, Francisco Weffort, Marco Aurélio Garcia, Aloizio Mercadante, Paulo Delgado e Paulo Ferreira”.
 
“Plano de trabalho 2007-2010
 
Cabe ao Diretório Nacional elaborar o plano de trabalho da SRI, com base nas resoluções políticas e organizativas do 3º Congresso, observando a evolução da situação internacional.
 
Dentre as prioridades para o próximo período, o Congresso aponta as seguintes:...
 
3.XIV Encontro do Foro de São Paulo, em 2008, em Montevidéu.
4.XV Encontro do Foro de São Paulo, em 2009, em Cidade do México...”
 

1D A terceira parte do vídeo do PT sobre o IIIº Congresso (2007), cujos trechos foram reproduzidos acima, também faz referências à importância do Foro de São Paulo na promoção do internacionalismo para a construção do socialismo na região.

(Link original removido pelo PT) http://www.youtube.com/watch?v=nHTXtPwTT9U
Cópia disponível no canal do M@M:
3° Congresso do PT - parte 3 - Socialismo Petista from midiaamais on Vimeo.

2. O Foro de São Paulo, as Farc e o PT

2B Do antigo site do PT, hospedado então no Universo Online (UOL). As páginas foram recuperadas através da Wayback Machine.

2Ba Lista dos partidos membros do Foro de São Paulo,que incluía as FARC:
 
 
 


2Bb Pronunciamento oficial do Foro de São Paulo em favor das Farc, justificando sua atividade guerrilheira como reação ao governo federal.
 
 
X Encontro (Cuba)
 
PRONUNCIAMENTO SOBRE O II ENCONTRO PELA PAZ NA COLÔMBIA
 
O X Encontro do Foro de São Paulo, realizado em Havana, Cuba, de 4 a 7 de dezembro do ano 2001, declara sua preocupação ante a acentuação da situação na Colômbia. As constantes matanças de camponeses em distintos lugares do país, ameaças, encarceramentos, desaparições de pessoas, constituem mostras da constante violação dos direitos humanos por parte do Governo colombiano, o qual provocou a resposta popular convertida em ações políticas, diplomáticas e guerrilheiras por parte do povo colombiano.
 
Nesse marco se realizou em San Salvador, durante os dias 20, 21 e 22 de julho deste ano, o I Encontro Internacional de Solidariedade e pela Paz na Colômbia e América Latina, realizado por iniciativa e sob a direção da FMLN de El Salvador. O II Encontro Internacional de Solidariedade e pela Paz na Colômbia e América Latina se celebrará na Cidade do México, nos dias 4 e 5 de março do próximo ano, tendo como anfitriões de dito evento os companheiros do Partido do Trabalho do México. O X Encontro se pronuncia por convidar todas as organizações e partidos membros do Foro de São Paulo a apoiar e participar ativamente deste evento.
 
Cidade de Havana, 7 de dezembro de 2001
 
2Bc Resolução do Foro de São Paulo em apoio às FARC, descrevendo e defendendo sua atuação como exercício “dos direitos de rebelião e autodeterminação dos povos” e rechaçando, também para o caso das FARC, “o qualificativo de terroristas” pois seriam somente uma “forma de resistência”.
 
 
X Encontro (Cuba) 
 
RESOLUÇÃO DE CONDENAÇÃO AO PLANO COLÔMBIA E DE SOLIDARIEDADE COM A LUTA DO POVO COLOMBIANO
 
O X Encontro do Foro de São Paulo reunido de 4 a 7 de dezembro de 2001, em Havana, Cuba.
 
CONSIDERANDO:
 
1. A grave crise econômica, política e social que sofre o povo colombiano, produto das políticas desenvolvidas pelo Estado e seus diferentes governos, aplicando as imposições do Império e as receitas do Fundo Monetário Internacional - FMI.
2. A justa e necessária luta de colombianas e colombianos por construir a sociedade que merecem, em paz, com justiça social, dignidade e soberania.
3. O desenvolvimento de medidas imperiais como o Plano Colômbia e seu complemento, a Iniciativa Regional Andina, verdadeiros planos de guerra contra o povo colombiano, latino-americano e caribenho.
4. O terrorismo de Estado que segue assassinando a população civil paralisada pela ação de seus grupos paramilitares.
 
RESOLVE:
 
5. Apoiar e encoraja os processos de diálogos desenvolvidos pelas FARC - Exército do Povo e o ELN, em busca de soluções diferentes à guerra para a grave crise colombiana e o conflito social, político e armado, ficando à disposição, na medida de nossas possibilidades e as necessidades dos processos.
6. Manifestar sua solidariedade e reconhecimento com a Frente Social e Política como expressão importante da organização de colombianos e colombianas no desenvolvimento da luta por seus direitos.
7. Repudiar e condenar novamente o Plano Colômbia e seu complemento, a Iniciativa Regional Andina, e organizar a resistência popular como parte da corrente de lutas contra a dominação neocolonial da qual fazem parte megaprojetos como a ALCA.
8. Manifestar publicamente, como forças e movimentos políticos anti-imperialistas, nossa defesa aos direitos de rebelião e autodeterminação dos povos do mundo e rechaçar o qualificativo de terroristas para toda forma de resistência.
9. Ratificar a legitimidade, justeza e necessidade da luta das organizações colombianas e solidarizar-nos com elas.
10. Condenar energicamente o terrorismo de Estado e demandar castigo ao paramilitarismo e seus responsáveis materiais e intelectuais, nacionais e estrangeiros.
11. Reivindicar o reconhecimento dos presos políticos e sindicais na Colômbia e exigir sua liberdade imediata. Pedir o pleno exercício do direito à defesa e a aplicação urgente das recomendações da ONU para modificar as condições carcerárias deploráveis em contradição com as normas elementares da dignidade humana.
 
Cidade de Havana, 7 de dezembro de 2001.
 

2C Do atual site do PT, atestando a participação das Farc como partido integrante do Foro, não como um mero partido convidado.

 
Partidos de esquerda da América Latina e Caribe terão encontro no próximo ano
 
O Grupo de Trabalho do Foro São Paulo reuniu-se no mês passado em Manágua, na Nicarágua com o objetivo de preparar o IX Encontro dos Partidos Latino-Americanos e Caribenhos de Esquerda, que será em fevereiro do ano que vem, na própria Nicarágua.
 
O PT e os demais partidos integrantes do Foro, além dos partidos convidados à reunião, participaram das comemorações do XX aniversário da Revolução Popular, promovida pela Frente Sandinista.
 
O Grupo de Trabalho fez uma análise sobre a situação política e econômica da região, da crise do modelo neoliberal que sob os chamados "efeito-tequila, samba ou tango acaba escamoteando a realidade que empobrece os países lationamericanos e concentra a riqueza nas mãos dos países desenvolvidos.
 
Durante a reunião, tratou-se também da dolarização das nossas economias, que nos converte em reféns do Tesouro americano e de sua política monetária, com altas taxas de juros.
O Grupo de Trabalho constatou que os partido do Foro têm desenvolvido política de alianças que tem o objetivo, por um lado de garantir transições pacíficas à democracia e, por outro, de consolidar os espaços de poder até agora alcançados nos processos eleitorais, destacando-se os casos do México e da Nicarágua.
 
Colômbia -
 
Foi tratado com especial ênfase o caso das negociações entre a FARC e o governo colombiano para um acordo de paz que garanta a democracia e a justiça social, a abertura do diálogo entre o ELN e o governo para facilitar o desenvolvimento da comunicação nacional. Neste sentido, o Foro repudiou veementemente qualquer tentativa de intervenção norte-americana no conflito armado que ocorre no país...
 
Participaram da reunião do Grupo de Trabalho do Foro de São Paulo, além do PT, o PRD, do México; FARC, Partido Comunista e ELN, da Colômbia; Partido Comunista de Cuba; Partido Comunista de Guadalupe; URNG, da Guatemala; e FSLN, da Nicarágua. Estiveram presentes também o Partidos dos Trabalhadores do México e o PSD-Frepaso, da Argentina, que foram convidados especialmente, em decorrência do Seminário do Cone Sul. Compareceram ainda representantes do Partido Social-Democrata, da Áustria; Partido Comunista da França e Partido Socialista de Esquerda da Noruega...
 

2D Carta de apoio das FARC ao então recém-eleito Luiz Inácio Lula da Silva

Publicada na Folha de São Paulo, em 5 de dezembro de 2002  http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft0512200207.htm (demonstrando que, ao se pronunciar contra as Farc durante a campanha, Lula somente despistava as atenções).
 
Carta das Farc manifesta apoio a Lula, Gutiérrez, Venezuela e Cuba
DA REDAÇÃO
 
As Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), principal grupo guerrilheiro de esquerda do país, expressaram ontem sua solidariedade ao presidente eleito do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, em uma carta enviada ao Fórum de São Paulo, organização de partidos de esquerda latino-americanos.
O fórum, idealizado pelo PT, realiza um encontro na Guatemala. Na carta, a guerrilha também manifestou apoio a Cuba, à Venezuela, aos argentinos, aos palestinos e ao presidente eleito do Equador, o coronel esquerdista Lucio Gutiérrez.
Durante a campanha eleitoral, Lula criticou a atuação das Farc e fez questão de desvincular o PT da guerrilha colombiana.
A carta das Farc tinha data de ontem e foi assinada na clandestinidade pelo chefe da comissão internacional do grupo, o ex-negociador de paz Raúl Reyes.
A mensagem foi difundida no dia em que o secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, em visita oficial a Bogotá, se encontrou com o presidente colombiano, Álvaro Uribe, e com a ministra da Defesa, Marta Lucía Ramírez.
A visita de Powell, a primeira à América do Sul desde os atentados terroristas aos EUA em 11 de setembro do ano passado, serviu como demonstração de apoio aos esforços do governo colombiano na luta contra o narcotráfico e os grupos armados ilegais.
Ela indica a possibilidade de uma ajuda financeira adicional para o Plano Colômbia, com o qual os EUA já contribuem com mais de US$ 1,3 bilhão.
 

2E Entrevista do supracitado Raúl Reyes, então chefe da comissão internacional das Farc, como afirmou o artigo da Folha de São Paulo reproduzido acima

Em  24 de agosto de 2003, Reyes declarou abertamente a ligação das Farc tanto com Lula como com Chávez: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2408200318.htm.
[...]
Folha - Vocês têm buscado contato com o governo Lula?
Reyes - Estamos tentando estabelecer -ou restabelecer- as mesmas relações que tínhamos antes, quando ele era apenas o candidato do PT à Presidência.
Folha - O sr. conheceu Lula?
Reyes - Sim, não me recordo exatamente em que ano, foi em San Salvador, em um dos Foros de São Paulo.
Folha - Houve uma conversa?
Reyes - Sim, ficamos encarregados de presidir o encontro. Desde então, nos encontramos em locais diferentes e mantivemos contato até recentemente. Quando ele se tornou presidente, não pudemos mais falar com ele.
[...]
Folha - Fora do governo, quais são os contatos das Farc no Brasil?

Reyes - As Farc têm contatos não apenas no Brasil com distintas forças políticas e governos, partidos e movimentos sociais. Na época do presidente [Fernando Henrique] Cardoso, tínhamos uma delegação no Brasil.
Folha - O sr. pode nomear as mais importantes?
Reyes - Bem, o PT, e, claro, dentro do PT há uma quantidade de forças; os sem-terra, os sem-teto, os estudantes, sindicalistas, intelectuais, sacerdotes, historiadores, jornalistas...
Folha - Quais intelectuais?
Reyes - [O sociólogo] Emir Sader, frei Betto [assessor especial de Lula] e muitos outros.
[...]
Folha - Que relação as Farc mantêm com o governo venezuelano?
Reyes - Estamos propondo ao governo de Hugo Chávez uma explicação sobre a política das Farc em relação aos países vizinhos.
Folha - Existe contato ou não?
Reyes - Temos informações muito positivas sobre Chávez, um bolivariano patriota que luta pela dignidade do seu povo. Nós o admiramos muitíssimo [...]”


3. Apagando as Fontes

3A O site original do Foro de São Paulo era http://www.forosaopaulo.org (sem a preposição “de”), já não mais acessível. Foi dessas e outras fontes que o sítio Mídia sem Máscara, também utilizando a Wayback Machine, quando necessário, retirou as Atas do Foro de São Paulo http://www.midiasemmascara.org/arquivo/atas-do-foro-de-sao-paulo/7.html. O domínio original pertencia, pelo menos em 2007, ao Partido dos Trabalhadores, como pode ser verificado no “Who is” do site http://who.is/domain_archive-org/forosaopaulo.org/. Como se pode ver no mesmo link, o detentor do domínio está agora protegido pelo Whois Private Protection Service, serviço utilizado geralmente por pessoas físicas que não querem deixar seus dados pessoais expostos.  Mas por que o PT, ou seja lá quem possui o domínio atualmente, quereria esconder seu vínculo com o sítio?
 
[N.E] ATUALIZAÇÃO 23/08/2010
 
A posse do domínio explícita em nome do Partido dos Trabalhadores vai até 29/10/2009. A partir daí o proprietário ativou o serviço de proteção do whois, como atesta o screenshot do serviço DomainTools abaixo:
 
Sendo o registro de 29/10/2009:
 
E o de 21/12/2009, já protegido por sigilo:
 
3B Atualmente, o sítio http://www.forodesaopaulo.org (com a preposição “de” faltante no original) aparece como o oficial. O “Who is” desse site está disponível.
Infelizmente, mesmo o acesso ao site por meio da Wayback Machine pode ser impossibilitado através da disponibilização de um robô (um arquivo em formato .txt) na página de abertura, como é explicado aqui. Parece ser essa a razão por que há grande dificuldade em se acessar as atas do Foro de São Paulo nos sites originais.

4. Estratégia Revolucionária.

4A Matéria do Le Monde, conhecidíssimo jornal francês, durante as eleições que levaram Lula ao poder:
 
 
"En privé, Lula, âgé de 56 ans, pense tout haut que l'élection est une 'farce' et qu'il faut en passer par là pour prendre le pouvoir."

Tradução:
 
"Em particular, Lula, com 56 anos de idade, pensa alto que a eleição é uma 'farsa' pela qual é preciso passar para tomar o poder."
 
4B À mesma época, foi publicada a seguinte entrevista de Marco Aurélio Garcia. assessor especial para política internacional de Lula, no  La Nacion, diário da Argentina:
 
http://www.lanacion.com.ar/02/10/05/dx_437863.asp (link para a entrevista completa. Para acessá-lo, no entanto, será necessário cadastrar-se no site)
 
"...Pero destacó: "Brasil se movió hacia la izquierda. La impresión de que el PT se trasladó al centro surge de que hemos tenido que asumir compromisos que están en ese terreno. Eso implica que tendremos que aceptar inicialmente algunas prácticas. Pero eso no es para siempre...".

4C Entrevista de José Genoíno ao jornal O Estado de São Paulo, publicada em 19.10.2003.
 
 
Até Lenin fez concessões a multinacionais'
 
Genoino nega que PT aprofunde modelo de FHC, mas diz que é preciso ceder para atingir outro modelo
 
Agliberto Lima/AE
 
PATRÍCIA VILLALBA e CONRADO CORSALETTE
 
O presidente do PT, José Genoino, recorre a ícones da esquerda para responder às críticas ao governo de Lula e negar que, no poder, o partido esteja navegando pelos mares do neoliberalismo. Na defesa de que o PT é, de fato, um partido de esquerda, o ex-radical e agora moderado Genoino não hesita em comparar Lula a Lenin: "Depois da Revolução (Russa) de 1917, Lenin fez concessões a multinacionais sobre exploração do petróleo de Baku, porque não tinha dinheiro para explorar."
 
Genoino nega veementemente que o PT esteja aprofundando a política econômica do governo Fernando Henrique. Citando a tão recorrente "herança maldita", ele argumenta que a equipe econômica teve de "segurar o boi pelos chifres" para pôr o País no rumo certo. Na mesma linha, ressalta que o PT não foi eleito para fazer rupturas, mas para mudar o País gradualmente. Por isso, lamenta a atitude "precipitada" de alguns companheiros que acham que o sonho já acabou - como o deputado Fernando Gabeira, que acaba de sair do partido.
 
"Não adianta sonhar e ficar por isso mesmo. E para mudar, tem de sonhar com os pés no chão."
 
Nesta entrevista ao Estado, Genoino fala dos planos do PT para continuar na esquerda, mesmo sendo governo:
 
Estado - O que o sr. diria aos petistas que talvez estejam pensando como o deputado Fernando Gabeira, que sonharam o sonho errado?
 
José Genoino - A quase totalidade dos petistas, pelas pesquisas que nós temos e pelas plenárias que são realizadas pelo País afora, tem confiança no governo. A base entende as dificuldades que o governo está vencendo, confia na força que o partido está dando ao governo. Portanto, eu acho que o sentimento da militância do PT é de realizar o sonho. Os petistas que esperaram e que lutaram 23 anos por esse momento não vão baixar a cabeça na primeira dificuldade.
 
Estado - Que tipo de contribuição o governo Lula e o PT deram até agora para a mudança do pensamento hegemônico, do neoliberalismo? A política econômica manteve-se a mesma.
 
Genoino - Não. Nós não estamos realizando a política neoliberal. Nós estamos criando no Brasil uma maneira de governar, com responsabilidade. Fomos eleitos para fazer mudanças processuais e graduais. O PT não ganhou a eleição para fazer rupturas. E nós temos uma correlação de forças que não é maioria de esquerda. Por isso, nós governamos com a esquerda, centro-esquerda e setores de centro. Esse é o resultado do processo democrático.
 
Estado - Mas o que diferencia o PT no governo?
 
Genoino - Em primeiro lugar, é um governo de negociação. Nós negociamos com governadores, com empresários e com o Congresso. Nós sabemos negociar mantendo a linha central do que nós queremos. Sinceramente, eu imaginava que as dificuldades seriam maiores. Foi isso que eu disse pro Gabeira: 'Estamos há 23 anos esperando por esse momento e na primeira dificuldade a gente deixa de sonhar?'
Estado - Em resumo, vai demorar para o senhor acordar desse "sonho"?
 
Genoino - Eu não tenho sonho errado. Eu sou um sonhador com os pés no chão, quero realizar o sonho. Aliás, o marxismo é que disse que pra a gente mudar o mundo, em vez de fazer abstração, tem de mudar. Não adianta sonhar e ficar por isso mesmo.
 
Estado - Quando o sr. imaginou as dificuldades, pensou que muitas delas viriam justamente do PT?
 
Genoino - Claro que sim. Nós sempre avaliávamos que haveria um tensionamento com certos segmentos do PT. É natural que tenha um tensionamento entre o ato de governar do PT e a experiência do PT. As pessoas estão se posicionando muito mais por razões político-ideológicas do que por razões técnicas.
 
Estado - Mas quando o PT era oposição, não praticava a oposição ideológica? Descartar a ideologia hoje, não seria uma nova versão do "esqueça o que eu escrevi" do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso?
 
Genoino - Não, pelo contrário. As idéias, os valores, as causas e os sonhos compõem o ideário do PT. O PT nunca foi vinculado a uma vertente ortodoxa da esquerda, não nasceu do muro.
 
Estado - Mas em algumas questões não há como não ser maniqueísta. Ou você agrada aos empresários ou agrada aos trabalhadores. Por exemplo, na reforma trabalhista. Os empresários vão aplaudir a reforma trabalhista do PT?
 
Genoino - Eu acho que nós temos de fazer uma mudança na CLT garantindo com direitos permanentes férias, repouso semanal, 13.º salário e licença maternidade. O que a esquerda tem de pensar é que a política não é um lado destruir o outro. Você não pode fazer política moderna sem negociar.
 
Estado - Mas não é constrangedor os maiores aplausos para o governo virem dos empresários, dos banqueiros e até mesmo do ex-ministro Pedro Malan?
 
Genoino - Elogios a gente recebe de qualquer pessoa. As pesquisas que nós temos mostram que a maioria da população brasileira elogia o governo Lula. A média de avaliação positiva do PT varia 31% a 36% e a rejeição, de 11% a 13%. A hegemonia é um processo paulatino de convencimento. É o que o PT está construindo.
 
Estado - Está construindo ou está se aproveitando de um pensamento e se moldando a ele?
 
Genoino - Não. Nós somos oposição ao pensamento neoliberal, aos valores de que o mercado resolve todos os problemas. Nós estamos construindo um projeto de Brasil com outros valores e outros parâmetros. Agora, essa construção não foi feita na base de um choque nem de uma ruptura.
Estado - Mas não há como negar que na economia houve um aprofundamento da política de Fernando Henrique.
 
Genoino - Nós não estamos aprofundando. Tivemos de segurar o boi pelos chifres para poder sair dessa situação. Já disse para os meus companheiros que eles precisam ler uma das decisões do Lenin, depois da Revolução de 1917. Ele fez concessões a multinacionais sobre exploração do petróleo de Baku, porque não tinha dinheiro para explorar. O problema é o sentido político de tomar essas medidas. Você toma essas medidas no sentido de aprofundar o modelo ou no sentido de processualmente criar condições para outro modelo. Eu acho que faria muito bem a alguns críticos do PT a leitura de algumas decisões de quando houve rupturas e confrontos. Ainda bem que o nosso filósofo inspirador da esquerda dizia: 'A humanidade só se propõe a fazer tarefas realizáveis.'
 
Estado - Depois das concessões de Lenin, veio uma grande mudança, o comunismo. O que vem por aí?
 
Genoino - Um país democrático, socialmente justo e soberano.
 
Estado - Isto é genérico demais.
 
Genoino - Nós não temos uma definição de implantar o socialismo como um projeto econômico e político. O PT está no jogo democrático, representa uma grande renovação da esquerda justamente porque saiu daquela matriz ortodoxa.
 
No início do governo Fernando Henrique nós fizemos uma oposição muito fechada. Qual foi o resultado? Derrota em 1996, perdemos quase todas as prefeituras. O PT aprende.
 
Estado - Como é que se sentiria o deputado José Genoino no Congresso tendo como aliado Roberto Jefferson (PTB-RJ), que foi da tropa de choque de Fernando Collor?
 
Genoino - Eu estaria muito feliz, como estou na presidência do PT, para defender um governo. Em relação a essas pessoas, você sabe que desde a minha experiência parlamentar eu era criticado porque me dava bem com todo mundo.
 
O deputado Roberto Jefferson apoiou Lula no segundo turno, apóia e vota com o governo. Está sendo bom pra quem? Para o PT e para o governo Lula.
 
Estado - O deputado Roberto Jefferson está sendo mais companheiro do que a senadora Heloísa Helena?
 
Genoino - Estou me referindo a aliados. Sobre esses companheiros do PT, eles deveriam manifestar suas opiniões e, na hora de votar, votar com o partido.
 
Se eu dissesse o que eles dizem do PT, para ser coerente, eu já teria deixado o partido. A política de esquerda tem lado, e não vamos abrir mão do nosso lado.
 
Estado - Apesar de Lula dizer que não é de esquerda?
 
Genoino - O Lula nunca foi um esquerdista e há uma diferença. Esquerda nós somos. Ser de esquerda hoje não é defender corporativismo. É defender uma sociedade justa.            
 
4D A entrevista ao jornal foi citada em outra entrevista com José Genoíno, no programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo http://www.tvcultura.com.br/rodaviva/programa/pgm0957 (à direita, clicar em “Transcrição”).
 
Paulo Markun: Só [vou] terminar a pergunta. No início do governo Lula, o senhor deu uma entrevista para a Patrícia Villalba e Conrado Corsalette, do Estado de S. Paulo, cujo título era “Até Lênin fez concessões a multinacionais”. E lá pelas tantas, eles lhe perguntaram: “Como é que se sentiria o deputado José Genoino, no Congresso, tendo como aliado Roberto Jefferson, que foi da tropa de choque de Fernando Collor?” E o senhor declarou o seguinte: “Eu estaria muito feliz, como estou na presidência do PT, para defender um governo. Em relação a essas pessoas, você sabe que, desde minha experiência parlamentar, eu era criticado porque me dava muito bem com todo mundo. O deputado Roberto Jefferson apoiou o Lula no segundo turno, apóia e vota com o governo. Está sendo bom para quem? Para o PT e para o governo Lula”. Eu pergunto: não foi uma tática errada, essa, de se apoiar em partidos que não tinham nenhuma ligação com as idéias do PT? E que veio dar aonde deu?
 
José Genoino: Paulo, o povo brasileiro, quando votou no Lula, não votou na maioria da Câmara e na maioria do Senado.
 
Paulo Markun: Sim, o PT chegou a 20%...
 
José Genoino: Diziam que o governo Lula não ia se viabilizar, porque o PT não tinha capacidade de fazer alianças. Nós construímos uma aliança com os partidos que apoiaram o Lula no segundo turno, inclusive o PTB. Ampliamos essa aliança com o PMDB, e nós devíamos ter incluído o PMDB desde aquela época no governo, porque nós tínhamos um programa, que era a estabilidade para o país crescer; melhorar emprego e renda, respeitando os termos da "Carta aos Brasileiros” [assinada pelo candidato Lula, em 2002, assegurando que, caso eleito presidente, o PT respeitaria os contratos nacionais e internacionais]; viabilizar os programas sociais, que nós unificamos no [programa] Bolsa Família, com sete milhões de famílias, aumentamos a renda média para 75 mil; recuperar o papel público das estatais e dos bancos públicos – foram recuperados: BNDES é banco de fomento, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, os bancos regionais –; e votar as reformas pendentes no Congresso: votamos a reforma da Previdência, a reforma do Judiciário e agora precisa retornar a reforma tributária. Estas alianças, elas foram importantes para o governo, que tem maioria. Não é só para aprovar o que o governo quer, é também para impedir que se aprovem coisas contra o governo. E a esquerda já fez alianças, inclusive em guerra. O Vietnã estava em plena guerra e fazia aliança pontual com quem estava matando; a China fez alianças...
 
Paulo Markun: [interrompendo] Sim, o Stalin fez aliança para...
 
José Genoino: Nós temos que ter objetivos...
 
Eliane Cantanhêde: Deputado.
 
José Genoino: Eu negocio. Eu usei um lema, que também está nessa entrevista [no Estado de S. Paulo]. Eu negocio com qualquer pessoa, mas eu sei qual é o lado da mesa e qual é a cadeira em que eu me sento...
 
Eliane Cantanhêde: Deputado.
 
José Genoino: Portanto, o mal não é das alianças. Agora, nós temos que definir, mudando o sistema político partidário, fazer alianças com critérios, fazer alianças mais precisas, isso nós temos que fazer. O PT é um aprendizado permanente...
 
Mauro Chaves: [interrompendo] E faz parte disso...
 
José Genoino: O PT muda o Brasil, e o Brasil ajuda a mudar o PT...
 
4E Recomendações de Lênin em “Esquerdismo, doença infantil do comunismo – Ensaio de palestra popular sobre a estratégia e tática marxistas”, clássico escrito em 1920 e disponível online neste endereço: http://www.marxists.org/portugues/lenin/1920/esquerdismo/index.htm. Lênin reprova o simplismo e ingenuidade dos revolucionários radicais, que criticavam quaisquer alianças estratégicas com forças políticas mais conservadores.
 
Ao surgir em 1903, o bolchevismo herdou a tradição de luta implacável contra o revolucionarismo pequeno-burguês, semi-anarquista (ou capaz de "namoricar" o anarquismo), tradição que sempre existira na social-democracia revolucionária e que se consolidou particularmente em nosso país em 1900/1903, quando foram assentadas as bases do partido de massas do proletariado revolucionário da Rússia. O bolchevismo fez sua e continuou a luta contra o partido que mais fielmente representava as tendências do revolucionarismo pequeno-burguês (isto é, o partido dos "socialistas revolucionários") em três pontos principais. Em primeiro lugar, esse partido, que repudiava o marxismo, obstinava-se em não querer compreender (talvez fosse mais justo dizer que não podia. compreender) a necessidade de levar em conta, com estrita objetividade, as forças de classe e suas relações mútuas antes de empreender qualquer ação política. Em segundo lugar, esse partido via um sinal particular de seu "revolucionarismo" ou de seu "esquerdismo" no reconhecimento do terror individual, dos atentados, que nós, marxistas, rejeitávamos categoricamente. É claro que condenávamos o terror individual exclusivamente por conveniência; as pessoas capazes de condenar "por princípio" o terror da grande revolução francesa ou, de modo geral, o terror de um partido revolucionário vitorioso, assediado pela burguesia do mundo inteiro, já foram fustigadas e ridicularizadas por Plekhanov em 1900/1903, quando este era marxista e revolucionário. [cap.IV]
 
Em 1908, os bolcheviques ‘de esquerda’ foram expulsos de nosso partido, em virtude de seu empenho em não querer compreender a necessidade de participar num ‘parlamento’ ultra-reacionário...” [cap. IV]
 
0 parlamentarismo é uma forma de trabalho; o jornalismo é outra. O conteúdo pode ser comunista em ambas, e deve sê-lo, se os que trabalham num e noutro setor são verdadeiros comunistas, verdadeiros membros do partido proletário, de massas. Mas, tanto numa como noutra - e em qualquer esfera de trabalho no capitalismo e no período de transição do capitalismo para o socialismo - é impossível evitar as dificuldades e as tarefas originais que o proletariado deve vencer e resolver para utilizar em seu benefício pessoas que procedem de meios burgueses, para alcançar a vitória sobre os preconceitos e a influência dos intelectuais burgueses, para debilitar a resistência do ambiente pequeno-burguês (e, posteriormente, para transformá-lo por completo)”.[cap. IV]
 
“Em 1918, as coisas não chegaram à cisão. Os comunistas ‘de esquerda’ só constituíram, na ocasião, um grupo especial, ou ‘fração’, dentro de nosso Partido, e por pouco tempo. No mesmo ano, os mais destacados representantes do ‘comunismo de esquerda’, Rádek e Bukharin, por exemplo, reconheceram abertamente seu erro. Achavam que a paz de Brest era um compromisso com os imperialistas, inaceitáveis por princípio e funesto para o partido do proletariado revolucionário. Tratava-se, realmente, de um compromisso com os imperialistas; mas era precisamente um compromisso dessa espécie que era obrigatório naquelas circunstâncias.” [cap. IV]
 
“Imagine que o carro em que você está viajando é detido por bandidos armados. Você lhes dá o dinheiro, a carteira de identidade, o revólver e o automóvel; mas, em troca disso, escapa da agradável companhia dos bandidos. Trata-se, evidentemente, de um compromisso. Do ut des (‘dou’ meu dinheiro, minhas armas e meu automóvel, ‘para que me dês’ a possibilidade de seguir em paz). Dificilmente, porém, se encontraria um homem sensato capaz de declarar que esse compromisso é ‘inadmissível do ponto de vista dos princípios’, ou de denunciar quem o assumiu como cúmplice dos bandidos (ainda que esses, possuindo o automóvel, e as armas, possam utilizá-los para novas pilhagens). Nosso compromisso com os bandidos do imperialismo alemão foi semelhante a esse.” [cap. IV]
 
“Todo bolchevique que tenha participado conscientemente do desenvolvimento do bolchevismo desde 1903, ou que o tenha observado de perto, não poderá deixar de exclamar imediatamente, depois de haver lido tais opiniões: ‘Que velharias conhecidas! Que infantilidades de ‘esquerda’!’” [cap. V]
 
“É impossível conceber maior insensatez, maior dano causado à revolução pelos revolucionários ‘de esquerda’! Se hoje, na Rússia, depois de dois anos e meio de triunfos sem precedentes sobre a burguesia da Rússia e a da Entente estabelecêssemos como condição de ingresso nos sindicatos o ‘reconhecimento da ditadura’, faríamos uma tolice, perderíamos nossa influência sobre as massas e ajudaríamos os mencheviques, pois a tarefa dos comunistas consiste em saber convencer os elementos atrasados, saber atuar entre eles, e não em isolar-se deles através de palavras de ordem tiradas subjetivamente de nossa cabeça e infantilmente ‘esquerdistas’”. [cap. VI]
 
“[O]s comunistas ‘de esquerda’ são pródigos de elogios a nós bolcheviques. Às vezes dá-nos vontade de dizer-lhes: louvem-nos menos e tratem de compreender melhor a nossa tática, familiarizar-se mais com ela!...” [cap. VII]
 
“É surpreendente que, com semelhantes idéias, esses esquerdistas não condenem categoricamente o Bolchevismo! Não é possível que os esquerdistas alemães ignorem que toda a história do bolchevismo, antes e depois da revolução de Outubro, está cheia de casos de manobra, de acordos e compromissos com outros partidos, inclusive os partidos burgueses!” [cap. VIII]
 
As pessoas ingênuas e totalmente inexperientes pensam que basta admitir os compromissos em geral para que desapareça completamente a linha divisória entre o oportunismo, contra o qual sustentamos e devemos sustentar uma luta intransigente, e o marxismo revolucionário ou comunismo. Mas essas pessoas, se ainda não sabem que todas as linhas divisórias na natureza ou na sociedade são variáveis e até certo ponto convencionais, só podem ser ajudadas mediante o estudo prolongado, a educação, a ilustração e a experiência política e prática...” [cap. VIII]
 
“... [R]enunciar a acordos e compromissos com possíveis aliados (ainda que provisórios, inconsistentes, vacilantes, condicionais), não é, por acaso, qualquer coisa de extremamente ridículo?” [cap. VIII]
 
“Colocar obrigatoriamente, a todo preço e imediatamente em primeiro plano a denúncia do Tratado de Versailles, antes da questão de libertar do jugo imperialista os demais países oprimidos pelo imperialismo, é uma manifestação de nacionalismo pequeno-burguês ... podemos e devemos aceitar, se for necessário, uma existência mais prolongada do Tratado de Versailles...a situação atual é de tal natureza, que os comunistas alemães não devem amarrar-se as mãos e prometer a renúncia obrigatória e indispensável ao Tratado de Versailles em caso de triunfar o comunismo. Isso seria uma tolice...”
 
“[Q]uanto à paz de Versailles, não estamos de modo algum obrigados a rechaçá-la a todo custo e, além disso, imediatamente. Amarrarmos as mãos antecipadamente, declarar abertamente ao inimigo, hoje melhor armado que nós, que vamos lutar contra ele e em que momento, é uma tolice e nada tem de revolucionário. Aceitar o combate quando é claramente vantajoso para o inimigo e não para nós constitui um crime, e não servem para nada os políticos da classe revolucionária que não sabem ‘manobrar’, que não sabem concertar ‘acordos e compromissos’ a fim de evitar um combate que todos sabem ser desfavorável”. [cap. VIII]
 
Depois da primeira revolução socialista do proletariado, depois da derrubada da burguesia num pais, o proletariado desse país continua sendo durante muito tempo mais débil que a burguesia, em virtude, simplesmente, das imensas relações internacionais que ela tem e graças à restauração, ao renascimento espontâneo e contínuo do capitalismo e da burguesia através dos pequenos produtores de mercadorias do país em que ela foi derrubada. Só se pode vencer um inimigo mais forte retesando e utilizando todas as forças e aproveitando obrigatoriamente com o maior cuidado, minúcia, prudência e habilidade a menor ‘brecha’ entre os inimigos, toda contradição de interesses entre a burguesia dos diferentes países, entre os diferentes grupos ou categorias da burguesia dentro de cada país; também é necessário aproveitar as menores possibilidades de conseguir um aliado de massas, mesmo que temporário, vacilante, instável, pouco seguro, condicional. Quem não compreende isto, não compreende nenhuma palavra de marxismo nem de socialismo científico, contemporâneo, em geral. Quem não demonstrou na prática, durante um período bem considerável e em situações políticas bastante variadas, sua habilidade em aplicar esta verdade à vida, ainda não aprendeu a ajudar a classe revolucionária em sua luta para libertar toda a humanidade trabalhadora dos exploradores. E isso aplica-se tanto ao período anterior à conquista do Poder político pelo proletariado como ao posterior.” [cap. VIII]
 
“E se replicarem dizendo que esta tática é muito ‘astuta’ ou complicada, que as massas não a compreenderão, que dispersará e desagregará nossas forças impedindo-nos de concentrá-las, na revolução soviética, etc., responderei aos meus contestadores ‘de esquerda’: não atribuam às massas o seu próprio doutrinarismo!” [cap. IX]
 
“A lei fundamental da revolução, confirmada por todas as revoluções, e em particular pelas três revoluções russas do século XX, consiste no seguinte: para a revolução não basta que as massas exploradas e oprimidas tenham consciência da impossibilidade de continuar vivendo como vivem e exijam transformações; para a revolução é necessário que os exploradores não possam continuar vivendo e governando como vivem e governam. Só quando os ‘de baixo’ não querem e os ‘de cima’ não podem continuar vivendo à moda antiga é que a revolução pode triunfar. Em outras palavras, esta verdade exprime-se do seguinte modo: a revolução é impossível sem uma crise nacional geral (que afete explorados e exploradores). Por conseguinte, para fazer a revolução é preciso conseguir, em primeiro lugar, que a maioria dos operários (ou, em todo caso, a maioria dos operários conscientes, pensantes, politicamente ativos) compreenda a fundo a necessidade da revolução e esteja disposta a sacrificar a vida por ela; em segundo lugar, é preciso que as classes dirigentes atravessem uma crise governamental que atraia à política inclusive as massas mais atrasadas (o sintoma de toda revolução verdadeira é a decuplicação ou centuplicação do número de homens aptos para a luta política, homens pertencentes à massa trabalhadora e oprimida, antes apática), que reduza o governo à impotência e torne possível sua rápida derrubada pelos revolucionários.” [cap. IX]
 
É necessário unir a mais absoluta fidelidade às idéias comunistas à arte de admitir todos os compromissos práticos necessários, manobras, acordos, ziguezagues, retiradas, etc....” [cap. X]
 
“...[N]ão conseguireis nada através unicamente dos hábitos de propagandista, com a simples repetição das verdades do comunismo ‘puro’. E é porque nesse caso a conta não é feita aos milhares, como faz o propagandista membro de um grupo reduzido e que ainda não dirige massas, e sim aos milhões e dezenas de milhões. Nesse caso é preciso perguntar a si próprio não só se convencemos a vanguarda da classe revolucionária, como também se estão em movimento as forças historicamente ativas de todas as classes da tal sociedade, obrigatoriamente de todas, sem exceção, de modo que a batalha decisiva esteja completamente amadurecida, de maneira que
 
1) todas as forças de classe que nos são adversas estejam suficientemente perdidas na confusão, suficientemente lutando entre si, suficientemente debilitadas por uma luta superior a suas forças;
 
2) que todos os elementos vacilantes, instáveis, inconsistentes, intermediários, isto é, a pequena burguesia, a democracia pequeno-burguesa, que se diferencia da burguesia, estejam suficientemente desmascarados diante do povo, suficientemente cobertos de opróbrio por sua falência prática;
 
3) que nas massas proletárias comece a aparecer e a expandir-se com poderoso impulso o afã de apoiar as ações revolucionárias mais resolutas, mais valentes e abnegadas contra a burguesia. É então que está madura a revolução, que nossa vitória está assegurada, caso tenhamos sabido levar em conta todas as condições levemente esboçadas acima e tenhamos escolhido acertadamente o momento”.[cap. X]
 
O autor é professor, micro-empresário e pesquisador free-lancer das estruturas não-governamentais de poder político.
 
Comentários (4) Comentários estão fechados
4 Qui, 16 de setembro de 2010 10:07
Humberto
Gostaria de saber se vocês tem as atas dos XIV e xv Foros, pois eu só tenho até o XIII. Parabéns pelo Trabalho

Prezado Humberto:
Gratos pelo contato.
Não temos a reprodução de Atas dos encontros do FSP, mas talvez seja possível encontrá-las via pesquisa na internet.
Atenciosamente,
Editoria MÍDIA@MAIS
3 Sex, 27 de agosto de 2010 10:51
Edmund Burke
Prezados, Muito obrigado e parabéns pela pesquisa e divulgação dessas informações. Depois disso, quero ver a canalha dizer qe são "ilações' e "leviandade" a "suposta ligação" com as FARC e o MIR. O Abílio Diniz é um idiota: apoiar uma candidata que tem ligações com seus sequestradores. Como pode? Imbecil!!!!

Caro Edmund Burke
Agradecemos imensamente o interesse e contamos com seu apoio em divulgar o artigo em sua rede de contatos.
Editoria M@M
2 Sex, 27 de agosto de 2010 00:23
Geraldo Rangel
PARABÉNS pela compilação!!! Me faltam palavras pra descrever tamanha competência em reunir provas tão, mas tão cabais contra esse demônio que engoliu o Brasiil chamado PT.

Caro Geraldo Rangel
Agradecemos imensamente o interesse e pedimos seu apoio em divulgar o artigo entre seus contatos.
Editoria M@M
1 Seg, 23 de agosto de 2010 13:57
Fora_PT
Ótima compilação!! Obrigado pelo trabalho em confeccioná-la.

Caro Fora_PT


Agradecemos o interesse e contamos com seu apoio em divulgá-la.


Editoria M@M