Thursday, December 2, 2010

Entrevista do policial federal Francisco Carlos Garisto


Polícia de Verdade


É preciso muito peito para fazer tudo o que este homem, um funcionário público, fez. Ele é polícia federal, liderança, presidente da Associação Brasileira dos Agentes da Polícia Federal e conselheiro da federação deles. Teve muito peito para dar esta entrevista também. Possui uma noção de cidadania rara de encontrar até em chefes de Estado. Que, aliás, considera funcionários públicos como ele. Daí o poder irresistível de falar tudo o que pensa, e parte de tudo o que sabe sobre todos os escalões da República. Sem medo de ser honesto, faz revelações que tornam esta entrevista, mais que explosiva, histórica.
Sérgio de Souza – Você podia contar como chegou na Polícia Federal?
Francisco Carlos Garisto – Se eu não fosse polícia, seria polícia mesmo. Coisa de aptidão. Desde menino queria ser polícia. E na repressão ao entorpecente. Porque fui criado em um bairro aqui em São Paulo, o Tucuruvi, onde, por causa da droga, o esquadrão da morte da época matou 90 por cento dos meus companheiros de rua, eram uma bandidagem danada. Tive que trabalhar desde cedo, porque era pobre e tinha que ajudar a família, e me sentia muito mais do lado da polícia, achando que os meus companheiros de rua estavam todos errados. Daí fui fazer o Exército e na época havia uma repressão política desgraçada, foi em 1971. Mortes, desaparecimento de pessoas, aí me convidaram para trabalhar na Oban, Operação Bandeirante, que era no DOI-Codi. Não sei por que cargas-d’água, falei: “Não vou mexer com esse negócio, não”.
Marina Amaral – Quem ia para a Operação Bandeirante tinha algum privilégio?
Garisto – Tinha. Primeiro, que você deixava a farda, e deixava de ser raso. Depois, que, você falando para um garoto de dezoito anos que ele é o James Bond, fica uma coisa muito interessante. Que não vai mais usar farda, vai usar uma 45 na cinta e vai ser agente infiltrado, muitos desses meninos foram usados para praticar um monte de imbecilidades. Existiam os repressores profissionais, que faziam escola no Panamá, nos Estados Unidos, mas tinha os meninos do Exército, da PM, que eles pegavam na formação de oficiais, dezenove anos, vinte anos, e jogavam lá. E a esquerda, para eles, eram assaltantes de banco, criminosos que estavam ameaçando o país, queriam implantar o comunismo. Eu não quis ir, queria sair do Exército, entrar na Polícia Federal.
Marina Amaral – Por que a Polícia Federal?
Garisto – Porque eu achava que ela tinha uma estrutura constitucional melhor, de investigação, que você poderia se desenvolver mais. Então deixei o Exército e fui prestar concurso para a Polícia Federal. Eram mais de quatrocentos disputando, fiquei em primeiro lugar e só o primeiro lugar conseguia vaga em São Paulo, o resto ia para as fronteiras. Entrei em 1977. Com cinco dias de polícia, fui repreendido, um tipo de punição porque não quis ir nas bancas de jornal apreender A Hora do Povo (jornal do MR-8, uma facção de esquerda). Vinham ordens do Armando Falcão (ministro da Justiça) para apreender o jornal porque tinha falado mal do presidente, do dinheiro do FMI, essas coisas. É que havia censura oficial. Os censores ficavam aqui na sua redação: “Isto pode, isto não pode”. O Estadão metia receita de bolo, aquelas coisas. Fui punido mas logo depois consegui ir trabalhar no entorpecentes. Quando fiz um ano de polícia, me convidaram para fazer uma infiltração em Cuiabá, me passar por vendedor de éter e acetona para os traficantes — para fazer a cocaína, eles precisam de éter e acetona. E, vendendo os dois produtos, eu ia acabar descobrindo o laboratório. Lá fui eu pra Cuiabá, sem estrutura nenhuma, a Polícia Federal não tinha verbas etc. Mas troquei de identidade e tudo.
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Mylton Severiano – Foi sozinho?
Garisto – Você não pode ir acompanhado. Fui com um informante, que levei só para ele me apresentar o contato lá. Aí montei uma empresa em São Paulo para comprar éter e acetona da Rhodia e levava para Cuiabá. Com isso, acabei chegando até a direção do Cartel de Medellín. Fiz carreira. (risos) Aliás, é muito mais fácil fazer carreira lá, porque existe uma ética, existe compreensão, eles valorizam quem trabalha, o puxa-saco não tem vez. Costumo falar que, se a polícia tivesse a estrutura do Cartel de Medellín, o Cartel de Medellín não existiria. Lá, se você dá lucro em uma operação, fica bem-visto; aqui, os colegas já querem te derrubar porque você vai chegar a chefe primeiro que eles.
Marina Amaral – A polícia tem mesmo interesse em chegar nos cabeças do tráfico?
Garisto – Tem, mas é difícil chegar. Ninguém quer falar isso, mas a diferença do Brasil para a Colômbia hoje é só a violência entre traficantes. Porque, de comando e controle do narcotráfico, é a mesma coisa. Taí a CPI provando o que estou falando, existe um crime organizado, um narcotráfico estruturado, que envolve deputados, senadores e outras coisas, só que não se pode falar sobre isso, a Polícia Federal é proibida de dar entrevista. Tenho facilidade porque estou na Federação Nacional dos Policiais Federais licenciado até 2002. Depois de 2002, se voltar para a ativa da polícia estou ferrado, porque eles não querem que fale isso, comparar o Brasil com a Colômbia “é antidemocrático”. Mas, se você não falar, não se encara o problema. Você ouve meu pai: “Puxa, mas deputado envolvido?” Tem um monte, o Jabes Rabello, de Rondônia, aquele que foi cassado, por exemplo, era só uma ponta; o senador Hernandes Amorim foi suspeito de envolvimento, aí fica na suspeita, mas continua senador. Essas investigações da CPI em Campinas, Piauí, Maranhão, se fizer um levantamento, em qualquer Estado dá igual.
Wagner Nabuco – Quantos homens tem hoje a Polícia Federal?
Garisto – Temos 7.000 homens. Desses, 3.000 são operacionais. Quatro mil estão na burocracia. Às vezes, burocracias necessárias, como o Serviço de Inteligência, que alimenta a operação. Temos região de fronteira com dois agentes, os traficantes passam de AR-15 dando risada e dando tchau. Verdade. Quem já esteve lá sabe que estou falando a verdade. Quando estive em Ponta Porã fazendo um serviço, vi uns caras passar e disse pros meus colegas: “Aqueles ali são suspeitos”. E eles: “Não olha, não, que aqueles caras são muambeiros”. “Como, não olha?” “Não olha porque eles vão marcar a gente aqui, depois você vai embora e a gente fica.” É assim, porque a mãe do camarada e a irmã trabalhavam no banco em que o gerente era irmão do traficante. O cara da Receita é primo do contrabandista.
Sérgio de Souza – Mas como foi a infiltração, a história de Cuiabá?
Garisto – Era uma investigação em cima de um traficante chamado Totó Garcia, o maior do Brasil na época. Só para registrar: esse trabalho é que deu origem à lei que proíbe o comércio de éter e acetona. Bom, em Cuiabá, me apresentaram um subalterno dele, chamado Pina.
Verena Glass – Quem te apresentou?
Garisto – O informante que levei e que depois eu não quis mais comigo, fiquei com medo que ele pudesse virar pro lado dos caras de novo. Então fui apresentado para esse Pina. Primeiro, eles querem testá-lo, têm gente na própria Polícia Federal, naquela época tinham, hoje não sei, mas na época eu até conhecia os agentes que trabalhavam para eles. Também por isso eu tinha identidade falsa, CPF falso, o meu era um caminhão apreendido mas com documento quente, que a gente preencheu no Detran, com autorização judicial. Não podia ter um furo. O repuxo do serviço de infiltração é o pior que existe. Você fica nervoso, dorme com o olho aberto.
Wagner Nabuco – Eles têm um serviço de inteligência próprio?
Garisto – O do Cartel de Medellín era perfeito. São profissionais, tinham até pessoal da DEA (Drug Enforcement Administration)trabalhando para eles. Fui apresentado para um agente da DEA na fazenda do traficante. Pensei: “Tô ferrado”. E tinha mais dois colegas da Polícia Federal de Cuiabá, que levavam informações para eles e foram lá me checar. E se um fosse da minha turma da academia?
Marina Amaral – Eles também estavam infiltrados?
Garisto – Não, eram servidores da Polícia Federal de Cuiabá e levavam grana para dar informações para os traficantes.
Cláudio Júlio Tognolli – Como começou sua “carreira” no Cartel de Medellín?
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Pablo Escobar-Chefe do Cartel de Medellin
Garisto – Com uma entrega de éter e acetona na Bolívia. Normalmente é o primeiro teste, queriam ver se eu tinha coragem de ir à Bolívia.
João de Barros – Você tinha uma empresa em São Paulo?
Garisto – Tinha, com filial em Campo Grande e Cuiabá, legalizada, quente. Naquela época não era proibida a venda de éter e acetona. Eles não tinham esse esquema, eu que montei. Aí passei a ser o rei do éter e acetona. Porque eles compravam de mim com toda a garantia. Antes, eles mandavam intermediários aqui buscar. A gente ficava de olho e descobria.
Wagner Nabuco – Como você operava?
Garisto – Comprava o éter e a acetona na Rhodia ou na Del Nero, que é uma distribuidora, e mandava de trem para Campo Grande. Lá, um caminhão meu pegava os tambores e levava para Cuiabá. Daí tínhamos que entregar onde eles mandavam: Alto Paraguai, Diamantina, Acorizal, aquelas cidades pequenininhas onde eles têm os garimpos com os campos de pouso para os Cessna. Eles tiram o banco traseiro do Cessna e colocam um tambor de éter e um de acetona, que eles chamam de “casal”, amarram aquilo e levam pro traficante, só aí que a mercadoria se torna ilegal. Então, o cara me convidou pra ir junto…
João de Barros — Para onde?
Garisto – Uma cidadezinha boliviana chamada Porto Soares, e depois uma outra, São Matias, que é mais pro lado de Cáceres.
João de Barros – E ali são bolivianos ou brasileiros?
Garisto – No refino, normalmente são bolivianos.
Marina Amaral – Você acompanhava a volta da droga para o Brasil?
Garisto – Eu não mexia com droga, foi uma condição que coloquei. Que é uma coisa também que você ganha a confiança deles, por não demonstrar interesse. O meu objetivo era entregar o éter e a acetona até descobrir o laboratório de uma tal de família Herrera. Era interesse do governo americano, esse trabalho todo que fiz. Coisa que combati muito tempo, porque o americano sempre deu dinheiro, tudo pra fazer serviço da droga que vai para eles, a droga que vem pros teus filhos aqui não lhes interessa. E a gente, funcionários da Polícia Federal, trabalhando pros americanos, fazendo o que eles bem entendem…
Sérgio de Souza – Ordens diretas?
Garisto – Ordem da Polícia Federal, mas eles praticamente comandavam a Polícia Federal na época.
Cláudio Júlio Tognolli – Havia um ponto de encontro com eles na rua Marquês de Paranaguá, não é?
Garisto – Do consulado americano. Hoje funciona dentro do consulado.
Wagner Nabuco – Havia um contato formal? Por exemplo: o diretor geral da Polícia Federal se reúne com o diretor…
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Garisto – Com o diretor da DEA. Lá fora se estabelece isso.
Wagner Nabuco – Vira documento?
Garisto – Vira documento. Não falando que a gente tem que obedecer, claro. Hoje, a Polícia Federal tem uma estrutura muito melhor, mas naquela época a estrutura era miserável. Então, eles chegavam aqui com 1 milhão de dólares e controlavam a Polícia Federal. Traziam a informação de fora, quem era o grande traficante, traziam informantes da França que iam trabalhar com você e você simplesmente executava o serviço que teria que ser deles. Aí, pô, eu não sou da ONU, sou da Polícia Federal do Brasil, tenho que coibir o tráfico primeiro aqui, mas não era isso que a DEA queria. Esse serviço que fiz pra pegarem a família Herrera é porque ela tinha causado a morte de um agente da DEA no México e eles queriam o troco.
João de Barros – Como é que você repassava para a Polícia Federal as informações que obtinha?
Garisto – Eu não precisava passar muita informação, porque o objetivo era a família Herrera. Ficava três ou quatro meses sem falar com ninguém. Porque, se você faz um contato e dá um furo, acabou tudo.
Verena Glass – E o dinheiro que você fez com a venda do éter?
Garisto – Devolvi para a Polícia Federal. Hoje, me sinto o maior otário do mundo.(risos) Estou sendo sincero, se fosse hoje não sei se faria a mesma coisa. No primeiro serviço lucrei 100.000 dólares. Pra entregar trinta tambores.
erena Glass – O capital inicial era de quem?
Garisto – Era da DEA, que dava para a Polícia Federal. Mas, voltando: aí marquei o encontro com o Totó Garcia no aeroporto de Cuiabá, e me aparece um senhor muito bem vestido que pergunta o que é que eu queria com o Totó Garcia, que era o chefe. Eu falei: “Tenho comércio com ele, trabalho com produtos químicos”. E o homem disse: “Sou tio dele e vim aqui pra saber… Você tem documento aí?” Era simplesmente o senador Benedito Canelas, do Mato Grosso. Um senador da República “funcionário” do Totó.
Verena Glass – Qual o ano?
Garisto – 1978.
Marina Amaral – Ele era da Arena?
Garisto – Era, daqueles indicadões, biônico. Aí fiz o relatório informando que fiquei com medo, pois senador tem como obter informações de várias coisas. Mas acabei fazendo amizade com ele, que gostou de mim. Dali o Totó fez amizade comigo e comecei a desenvolver o trabalho.
Marina Amaral – Que tipo de pessoa ele era, tinha outras atividades?
Garisto – Era piloto e prestava serviço de táxi aéreo. Bom, fui entregando, entregando e uma hora ele disse: “Agora vamos parar com esse amadorismo, vou apresentar você pros Herrera”. Aí me levaram numa fazenda, saindo da fronteira do Brasil onde nasce o rio Paraguai. Era ali que eles tinham um garimpo e, passando um pouco, já é Bolívia. A fazenda era no meio do mato, não tinha nada e eu pensei: “Onde é que essa desgraça vai pousar?” Aí aparece uma pista de pouso no meio do mato, asfaltada, com pino de luz, parecendo um aeroporto de Ribeirão Preto. (risos). Eu pensei: “Isso aqui é uma base militar”. De cima achei que fosse. Vi uns caras camuflados, de AR-15. Era a fazenda dos Herrera. A família estava na piscina, igual a esses filmes de cinema, no meio do mato e com todo o conforto, Lear-Jet dentro de um hangar. Os Herrera controlavam quase todo o exército boliviano…
Marina Amaral – Mas o que é o “garimpo”?
Garisto — Garimpo mesmo. Eles usavam pra lavar dinheiro, no caso era garimpo de diamante. Perguntei depois pro Totó: “Como vocês fazem pra lavar dinheiro?” “A gente encontra uma pedra no meu garimpo, que é registrado, inclusive a pedra já vem lapidada.” (risos) Então, na fazenda me apresentaram para o chefão, o Herrera, dizendo que eu era o Carlinhos que tinha revolucionado a entrega de éter e acetona, que era o calo deles, até hoje é o calo deles. Eles têm dois calos: lavagem do dinheiro e produto químico.
Marina Amaral – Se fiscalizar o garimpo, a lavagem de dinheiro e a venda de acetona se restringem muito?
Garisto – Hoje eles não lavam mais assim, hoje tem os bancos, as grandes instituições financeiras estão lavando dinheiro, que é uma coisa mais moderna, já é coisa de CPI, né? Hoje, a lavagem é quase aberta, não é? Temos o Uruguai aqui, que não tem nenhum problema. Conclusão, ganhei a confiança da família, que era o que a DEA queria. Estava chegando perto de terminar meu serviço. Na última entrega, os americanos, como sempre, de Hollywood, me passaram os tambores com bip dentro, um navegador com uma bateria daquelas da NASA que dura não sei quanto tempo, e soldaram o fundo, ficava um pequeno fundo falso. Trouxeram dez tambores desses dos Estados Unidos e aí levamos na Rhodia para encher.

“Os bancos, as grandes instituições financeiras estão lavando dinheiro, é uma coisa mais moderna. Hoje, a lavagem é quase aberta, não é? Temos o Uruguai aqui, que não tem nenhum problema.”
Marina Amaral - A Rhodia sabia?
Garisto – Não, cheguei lá e falei que a gente queria reaproveitar aqueles tambores, e levei os tambores cheios.
Mylton Severiano - E você sabia de tudo?
Garisto – Sabia. Inclusive tem um pelinho assim, um fiozinho bem fininho que era a antena, e tinha que passar barro pro pessoal não ver. Aí fui entregar os tambores, havia até a comemoração de aniversário de um cara, uma festa desgraçada, tinha general do exército boliviano pra tudo que era lado. Aí um cara falou: “Gostei do teu esquema”. E me levou num galpão, metade desta sala, cheio de dinheiro, vocês já assistiram à Máquina Mortífera 2, que tem um container cheio de grana, tudo dólar? Aí o cara pegou 50.000 dólares e me deu: “Isso aqui é pra você, estamos contentes, não faltou mais éter nem acetona, a produção tá a todo vapor”.
Marina Amaral - Nem essa gratificação você pegou?
Garisto – Não peguei, você acredita? Hoje pegaria. (risos) Bom, aí seriam entregues os tambores e a operação do flagrante tinha que contar com uma equipe especial do exército boliviano, Os Leopardos, que existe lá, mas já mataram quase todos. A Lidia Gueiler era presidente da República na época, 1979, e criou esse grupo de elite, por interferência dos Estados Unidos, pra combater o tráfico. Eram limpos mesmo esses Leopardos, nacionalistas fanáticos, acreditavam que tinham que limpar o país da droga e tal. Eles auxiliaram a DEA a localizar os tambores de fundo falso. Com aqueles mecanismos dos americanos, satélite e tudo, eles descobriram as fazendas todas.
Marina Amaral – Foram presos os Herrera?
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Garisto - Foi todo mundo preso e foram toneladas de cocaína, vários aviões, tambores de éter e acetona, vários milhões de dólares; descobriram as fazendas e os laboratórios. Porque cada tambor daqueles era levado para um canto.
Cláudio Júlio Tognolli – Logo em seguida veio a preparação do golpe contra a Lidia Gueiler.
Garisto - Por causa da prisão do Herrera é que anteciparam o golpe. Aquela vez que eu estava na fazenda eles já estavam bolando o golpe. O García Meza estava lá, eu não sabia que era ele. Um tempo depois, abro uma Veja e está lá: o comandante do exército boliviano veio ao Brasil para uma operação conjunta contra as drogas na fronteira. Olhei assim e: “Pô, esse cara estava lá na fazenda do Herrera”.. Mandei um relatório pra Brasília, cancelaram a participação nossa na operação final por causa disso.
Sérgio de Souza – E o que aconteceu com a família Herrera?
Garisto - A família Herrera ficou presa três meses, aí deram o golpe na Lidia Gueiler e acabou tudo. Ela se asilou, os Herrera seriam mortos depois, na guerra com o Pablo Escobar. A CIA armou o golpe, e quem os militares botaram no lugar de Lidia Gueiler? O García Meza! (Que cairia depois de um ano, acusado de narcotráfico).
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Mylton Severiano – Mas a CIA não sabia que ele era do tráfico?
Garisto – O governo americano incentivou o golpe para botar o García Meza mesmo sabendo que ele era envolvido com droga, porque a Lidia Gueiler estava querendo instalar um socialismo independente, querendo encarar os americanos. Tomamos uma revolução aqui por causa disso também. Todo mundo toma. E se não cuidar toma de novo. Não acabou essa ameaça.
Mylton Severiano – E essa criticada Operação Mandacaru, em Pernambuco?
Garisto - Isso é burrice, vaidade, megalomania de um general chamado Alberto Cardoso. A maioria dos militares foi contra. Ele está expondo o Exército ao ridículo. Está querendo dar uma importância ao projeto que o Exército não deu. É como a CIA. Antigamente, a CIA mexia em quê? Rússia, bomba atômica, foguete. Caiu o Muro de Berlim, acabou a guerra fria, e você precisa dar utilidade ao aparato. Existe hoje nos Estados Unidos uma guerra entre a CIA e a DEA, pra quê? Para investigar o tráfico. É que aqui tudo acontece sempre atrasado, a Abin que foi criada agora, a Agência Brasileira de Inteligência, é um SNI com um pouquinho de chantilly em volta. Vi como é que funciona tudo. Foi criada depois de um fracasso, o do grampo do BNDES. Vocês acompanharam. Se fosse um país sério, poderia criar daqui a um ano, com outro nome, porque foram os agentes temporários da Abin que fizeram aquela desgraça toda. Eles se juntaram com ex-agentes federais e aquele grampo, na minha opinião, foi feito a mando do alto, havia medo de que algo nas privatizações desse errado, era muito dinheiro envolvido em vésperas de eleição. E o general Cardoso mais uma vez pegou os arapongas dele e disse: “Acompanha esse troço”. E eles resolveram grampear. Tudo com medo da eleição. Como sabem da existência de um monte de aproveitadores e corruptos, tinham medo de uma roubalheira nas privatizações. Aí descobriram o grampo com um monte de conversas de ministro e altos funcionários interferindo no processo, ajudando uns e prejudicando outros, até o presidente FHC caiu no grampo. Aí deu bode, “não foi ninguém”.. O general vem e diz que alguém deixou embaixo da ponte as fitas que conseguiu. Aí descobrem que o chefe da Abin do Rio de Janeiro é que mandou fazer o grampo, aparece o Telmo, que foi da Polícia Federal, que é um sujeito demitido da polícia por corrupção, metido com o pessoal remanescente do SNI, as viúvas do golpe, que estão perdidas por aí. E não estão mortos, não, entendeu?
Marina Amaral – E onde estão esses militares?
Garisto - A maioria foi pra reserva, se aposentou, mas soube que alguns estão sendo chamados para a Abin. Agora, aqueles que eram marcados da tortura, que estão nos livros dos padres, esses não voltam, porque senão vai dar zica. Mas o pessoalzinho que não foi identificado no livro de ninguém volta. Eles forçaram para botar o Campelo na Federal. Aí alguém lembrou que ele torturou o padre”. “Então vamos ver se ele torturou o padre.” E deu aquele bode todo.
João de Barros — Hoje, o diretor geral da Federal é o…
Garisto – Agílio Monteiro Filho.
João de Barros - Ele responde pra quem?
Garisto – Ele responde ao Ministério da Justiça. Em tese, porque está lá o general Cardoso, da presidência da República, fungando na orelha dele. O Chelloti caiu, tenho uma amizade com o Chelloti muito grande. Foi ele que começou essa reforma da Polícia Federal, forte, organizada. Só que o Chelloti se deixou envolver por uma AIDS que existe no serviço público, que se chama vaidade, “posso chegar aqui, posso chegar ali, posso até ser senador”. Aí veio aquela história do grampo que fizeram no Júlio César, o assessor do presidente da República. Uma fita que envolvia o presidente. Ficaram três anos investigando se o Chelloti tinha mesmo a fita para poder tirá-lo e, quando descobriram que não tinha, tiraram.
Sérgio de Souza – E não tinha fita mesmo?
Garisto – Não tinha a que eles esperavam. Tinha a fita, mas eram coisas pessoais do presidente, coisas que todos temos, às vezes. Eram coisas que iam causar prejuízo para o presidente na parte moral, mas não derrubavam ninguém. E eles queriam supor que o presidente teria sido envolvido naquela grana do Sivam. E aí entra o pessoal da Abin para querer saber o que eles pensavam que o Chelloti sabia.
Cláudio Júlio Tognolli – Houve toda aquela confusão, o Alberto Cardoso se metendo com a Polícia Federal e as fronteiras continuam um queijo suíço, não é?
Garisto – Continuam, claro, nas fronteiras poderia estar o efetivo do Exército. Entra em um quartel do Exército em lugares paradisíacos e vê o que eles estão fazendo. “Ah, o Garisto tem bronca do Exército.” Não tenho bronca nenhuma, a única bronca que tenho é quando eles invadiram a Polícia Federal na greve, eu era o presidente do sindicato e da federação, estava comandando aquela greve e eles invadiram. Essa história é interessante pra vocês porque era golpe de Estado aquilo. Tenho provas de que era golpe de Estado.
“A Abin é um SNI com um pouquinho de chantilly. Criada depois de um fracasso, o do grampo do BNDES. Foram os agentes temporários da Abin que fizeram aquela desgraça toda.”
João de Barros – Você estava falando, se for agora num quartel?
Garisto – Você vai pegar o pessoal jogando basquete, levando a mulher do coronel para o supermercado, os coronéis e generais jogando peteca. Não estou desmerecendo as Forças Armadas, eles é que estão se ferrando. Estão ganhando mal, estão usando equipamento todo enferrujado. Tem muita coisa errada como na Polícia Federal, por exemplo, você vê no aeroporto aquele bonitinho de terno, aquelas menininhas, alguém aqui acha que são da Polícia Federal? São funcionários da Protege, empresa de segurança. São contratados. Fui contra, entrei na Justiça, entrei na Procuradoria.
Wagner Nabuco – Como é que é? No aeroporto, aquele pessoal do raio X não é da Polícia Federal?
Garisto – Não, são da Protege, quando chefiei o aeroporto eram, hoje não sei se ela ganhou o contrato de novo. Se não for da Protege, é de outra empresa de segurança privada. E outra: eles custam para a nação mais do que um agente federal.
Wagner Nabuco – Também aquele que checa o nosso passaporte?
Garisto – Não, esse do guichê é da Polícia Federal. Para impedir a viagem de alguém, tem que ser funcionário competente. Mas aquele funcionário da empresa contratada, se achar cocaína, não pode fazer nada. Não pode abrir a mala de ninguém, é funcionário incompetente, por lei. É usurpação de função. Entrei na Justiça e não julgaram até hoje.
Wagner Nabuco – A maioria das empresas de segurança é dirigida por coronéis?
Garisto – Sim. Militares em geral ou delegados de polícia.
Wagner Nabuco – O pessoal da reserva.
Garisto – Do Exército, da Aeronáutica, da PM tem muito. Até o Fleury tinha empresa de segurança, o falecido.
Verena Glass – Depois do episódio na Bolívia, o que você fez?
Garisto – Vim trabalhar no entorpecentes, em São Paulo. Montamos um serviço de informação que não havia. De drogas, esse em que batalho. Quando o Galdino foi diretor, tentou criar um serviço desses, mas era um SNI disfarçado. Aí fui pra Folha denunciar, o Tognolli deu na Folha: “Galdino tenta recriar SNI”.. Porque a Polícia Federal foi usada para esquentar as mortes, as roubalheiras e as falcatruas dos DOI-Codi da vida. Tinha que ter um cartório para esquentar aquilo. Não pode ter cartório no Exército, nem na Aeronáutica, nem na PM, então vamos criar um na Polícia Federal para fazer aquelas porcarias que terminaram na Justiça Militar. Só que, quando começaram a fazer o concurso público, o primeiro foi em 1973, começou a aparecer garoto de faculdade, tipo eu. Começamos a entrar na polícia. E a gente começou a falar: “Não, eu não vou fazer isso aí. Isso aí não tá legal, isso aí tá por fora”. Aí começou a mesclar. Até que fundamos o sindicato, em 1988, e viramos a mesa: “Não vamos mais fazer esse troço, não tem mais informação, vamos denunciar e acabamos com todo mundo”. Hoje, a Polícia Federal tem a credibilidade que tem aí.. Por quê?
Mylton Severiano – O que você acha da unificação da Polícia Militar com a Civil?
Garisto – Polícia Militar não existe. Ou é militar ou é polícia. A academia treina o cara para ser militar, uma estratégia de combate. O policial só tem que ter estratégia de combate para se salvar ou salvar a vida de terceiros, não para atacar.
Wagner Nabuco - Você acha que isso tem a ver com a concepção das PMs depois da Revolução de 1964?
Garisto – Claro. Toda polícia no Brasil tem o resquício da ditadura, porque os comandantes e os generais são os mesmos que eram tenentes naquela época e adoravam a revolução. Eram os meninos que torciam para que desse certo até hoje o Castelo Branco. Hoje, eles são os generais, os coronéis, a mentalidade é a mesma. Eles se moldaram porque deu bronca, começou a pintar livro, vocês sentaram o pau, quem é torturador não assume nada: “Então não sou mais, sou direitos humanos”. Mas eles estão aí ainda. E muito arraigados na Polícia Federal, na Civil, a maioria dos delegados gerais de polícia é dessa época.
Cláudio Júlio Tognolli – E o Tuma? Você é o maior adversário que o Tuma teve. Qual foi o papel que vocês sempre apontaram como nefasto do Tuma na Polícia Federal ?
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Garisto – O Tuma, houve um tempo em que era uma figura pública intocável. Todo mundo acha que ele era o cão chupando manga e até acham que ele teve 5 milhões de votos pro Senado. Costumo falar que o Tuma é um fenômeno da mídia porque ele tinha um grupo que qualquer apreensãozinha ele já tinha os contatos. Ele tinha um projeto para a presidência da República, ou ainda tem. Era o projeto PR, Papa Romeu, eles têm escrito isso em dossiê, o Comando Delta é que interfere… se o Comando Delta sair na revista, cai a casa toda.
Sérgio de Souza – O que é o Comando Delta?
Garisto – O Comando Delta é a fábrica de presidentes, é o que comanda o sistema brasileiro, que fez a reunião para escolher o Fernando Henrique, que já deve estar fazendo reunião para convidar outro.
João de Barros – Quem faz parte desse Comando?
Garisto – Ah, esse comando é florido! Não vou entrar nessa, que essa eu não posso.
Sérgio de Souza – Não precisa dizer os nomes, só os cargos, ou de que áreas.
Garisto – De todas. De médico a político, a tudo. Eles se reúnem e não existe uma coisa planejada. O camarada, por exemplo, é dono de uma escola e está faturando milhões, se entrar o Lula: “Aí ele vai me ferrar, estou ganhando 100 milhões por ano…”.
Quase todos – Di Genio?
Garisto – Vocês que estão falando. Aí tem, por exemplo, um banqueiro — quero ver vocês falarem agora.
Wagner Nabuco – Tem muitos.
Garisto – Aí você tem o sistema bancário, por exemplo, e os caras faturando um bi por ano, você pega o último balanço do banco e ele passa a ser o primeiro — estou dando dica pra caramba —, aí você vê um cara desses correr risco de entrar um maluco qualquer na presidência da República; não é aquele conluio de conspiração para matar o Kennedy, mas é aquela coisa que você se organiza para manter o status quo: “Vem cá, meu irmão, o que vamos fazer?” E eles chamam de Comando Delta: “Não está na hora de reunir o Comando, não?” Então, eles chamam um, chamam o outro, se reúnem.
Wagner Nabuco – Tem um secretário?
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Garisto – Não tem secretário, nem presidente, não é conspiração, é informal, cuidam dos interesses deles com as armas que têm: grana!
João de Barros - Mas é palaciano?
Garisto – É pré-palaciano. E depois levam o resultado. Então, você reúne a empreiteira que faturou não sei quantos milhões, o banqueiro que ganha não sei quantos milhões, e aí você tem que eleger uma pessoa para comandar os trabalhos, como na maçonaria tem o grão-mestre, aquelas coisas.
Verena Glass - Tem consultor externo?
Garisto – Tem de tudo. Hoje, você está conversando, amanhã os caras estão entregando. Uma vez dei uma entrevista na televisão e falei: “O Comando Delta acaba escolhendo um presidente aí”. Só falei isso, e a entrevistadora, na hora: “Quem é o Comando Delta?” Eu: “As pessoas ‘de bem’ do país, pessoas que comandam a economia, o mercado”. Rapaz, deu um bode desgraçado! Ela me ligou depois de dois dias e disse: “Garisto, o que tem de gente ligando querendo saber do Comando Delta”. Falei: “Isso é coisa do Chuck Norris, Comando Delta 2, 3, pára com isso! Tô fora, porque eles são muito fortes”. São unidos, ricos e inteligentes. Aquela operação toda feita no seqüestro do Diniz, organizado, bonitinho, vocês da mídia são os donos dela através do representante maior de vocês — daqui a pouco estou falando o nome, que já ganhou a segunda tartaruga agora. Ele ganhou a segunda tartaruga porque a outra morreu. (risos)
Sérgio de Souza – Ficou para trás aquela história do golpe de Estado.
Garisto – O golpe que não houve. Estávamos fazendo uma greve e eu estava comandando, era presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais…
Sérgio de Souza – Que ano era isso?
Garisto – 1994. Aí tem nome, e eu dou porque falei pra eles que ia escrever um livro e eles falaram que podia botar, então está liberado: é o Moroni Torgan e o deputado federal Luciano Pizzatto, que estão na ativa ainda. O Luciano Pizzatto, na época, era presidente da Comissão de Segurança Nacional da Câmara, muito ligado aos militares. E o Moroni era líder do governo do Itamar. É meu amigo particular, já o conhecia desde aquela época. Aí estávamos comandando aquela greve e dez dias, quinze dias, a Veja deu capa, a IstoÉ deu capa. AVeja deu: “Baderneiros ameaçam autoridade do governo”. E o distintivo da Polícia Federal. A IstoÉ deu: “Rebelião dos tiras”.. E o distintivo da Polícia Federal. E aí fui no Jô, fui em tudo quanto é canto por conta da greve. O que queríamos? Queríamos o mesmo salário que a Polícia Civil do Distrito Federal recebia. Porque tinha a lei 7.702 que dizia: “Policial federal tem que ganhar igual a policial civil”. E não estavam cumprindo. Você é um policial, obriga todo mundo a cumprir a lei e não cumprem pro policial, então fomos pra greve. E aí todos os Estados entraram em greve, dez dias, vinte, trinta, quarenta, cinqüenta dias. “Como é que vamos acabar essa greve?” Aí eles queriam assumir — eles, vou dar nomes —, queriam assumir o controle da Polícia Federal. Os militares, as viúvas do SNI querem o controle da Polícia Federal porque é o instituto legal que detém hoje as coisas que têm que ser feitas no país: Collor, PC, agora esses deputados todos aí, você vê que rola tudo na Federal. E os militares tiveram o comando da Polícia Federal desde a sua criação. Ela foi criada pra ser um braço civil deles. E botaram lá o general Bandeira, o coronel Moacir Coelho, depois o coronel Araripe. O primeiro civil foi o Romeu Tuma, que era superintendente da Polícia Federal em São Paulo, colocado pelo senhor Georges Gazale, que era amigo pessoal do Figueiredo. “Ah! O primeiro civil.” Civil com aspas, né? Porque o Tuma não é propriamente um civil: era chefe do DOPS. Comandou aquilo tudo, mas passou como bonzinho, os amigos que trabalharam com ele foram quase todos execrados na mídia pelas merdas que fizeram e depois foram abandonados pelo chefe.
Sérgio de Souza – Dizem até que ele acabou com a tortura nos porões.
Garisto – Isso é brincadeira! Você levanta os caras que sumiram na época em que ele era diretor do DOPS. Porque quem comandava a tortura era o Fleury, não era ele. Só que ele sabia, o Fleury não fazia nada sem ele. E, é lógico, ele passou incólume, sorte dele, é inteligente, estamos em outra época e ninguém quer caçar defunto. Aí o que acontece? O Tuma manteve o mesmo controle, passava as informações todas pros milicos. Os milicos: “Fulano não quer aprovar a compra dos tanques, quem é ele?” “Eu vou levantar.” É assim que se processavam as coisas. Aquele maldito tráfico de influência que se operava através da Polícia Federal. Mas ela foi crescendo num processo de democratização, culminando com a indicação: “Agora não pode mais colocar um militar, porque o período não está permitindo mais, a Polícia Federal cresceu, está investigando índio, terra, tudo, vamos colocar um civil”. Aí bota o Galdino, de formação igualzinha à do Tuma. O Galdino foi acusado de tortura. O livro Brasil! Nunca Mais tem o nome do Galdino. E ele foi colocado de diretor, quer dizer, a mesma coisa. E se reportava aos milicos daqui e de lá. Aí coloca um outro ligado, mais um outro ligado, aí vem passando, você chega no Chelloti. O Chelloti coloca uma mentalidade nova e não dá bola para os milicos. Aí os milicos tinham que derrubar o Chelloti, certo? E vem o coronel Wilson Brandi Romão, que foi chefe da Conab e foi acusado de um enorme prejuízo na Conab, deixou apodrecer feijão, aquele negócio todo. Como prêmio por ter dado um prejuízo de 50 milhões à Conab, ele foi assumir a Polícia Federal. Assumiu para acabar com a indisciplina do sindicato, que estava ameaçando greve: “Vamos botar um coronel de novo, que a disciplina está sendo quebrada, está sendo rompida. O Tuma não tem mais autoridade e nem o Galdino, vamos botar o coronel”.
“O Comando Delta é a fábrica de presidentes, é o que comanda o sistema brasileiro, que faz a reunião para escolher FHC, que já deve estar fazendo reunião pra convidar outro.”
Verena Glass – O sindicato você que tinha fundado?
Garisto – O primeiro sindicato foi fundado no Rio Grande do Sul, fundei aqui em São Paulo, depois fomos fundando outros. Fui também o primeiro presidente da Federação Nacional, fundada em Brasília. E hoje temos 26 sindicatos e mais a Federação de todos os funcionários da Polícia Federal. Então, quando fomos pra greve, o coronel Romão não quis papo com a gente, disse que não conversava com sindicalista. Por quê? Porque essa era uma época em que morriam sindicalistas assassinados. Ele vê o sindicalista como aidético com problema radiativo, não quer contato. Começou a greve, ele falou: “Eles querem fazer greve, que façam, mas vou punir todo mundo”. E começou a meter processo em todo mundo. E a moçada, o contingente todo não teve medo, continuou em greve. Um belo dia, um delegado que estava aqui em São Paulo, altamente ligado à cúpula militar e que hoje é o corregedor geral da Polícia Federal, o doutor Lobo, a pretexto de que os policiais teriam abandonado o plantão deixando no prédio a cocaína apreendida, as metralhadoras e os inquéritos famosos, o ouro e isso e aquilo, a pretexto de que havíamos abandonado tudo para fazer a greve, disse que o prédio estava à mercê dos bandidos. Relatou pra Brasília e pediu a intervenção do Exército na Polícia Federal de São Paulo. E era mentira, porque mantivemos na ativa 30 por cento do efetivo. Mas eles queriam tumulto. Aí o Exército invade a Polícia Federal de São Paulo, Itamar Franco liberou pra invadir. Acreditou no relato que o superintendente fez a pedido do próprio Exército, coisa deles. E o Exército desembarca então mil homens ali na rua Antônio de Godói, com helicópteros, fuzis, metralhadoras de chão.
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João de Barros – Aqui no centro?
Garisto – Aqui no centro, na esquina da Antônio de Godói com Rio Branco, Santa Ifigênia, aquele pedacinho ali. Eles fecharam a rua, desviaram o trânsito e despejaram soldado. Percebi que eles iam fazer a invasão e o Inocêncio Oliveira, que era um dos negociadores conosco, me chamou no gabinete dele e falou: “Francisco Carlos Garisto, conversei com o ministro da Justiça sobre aquela disposição de vocês”. Porque falei que ia deixar duzentos homens armados com metralhadora lá para enfrentar o Exército. Eu não ia, mas não podia falar que não ia, é aquele jogo de greve: “Se invadir vai ter tiro”. O Inocêncio ficou com medo disso, o Itamar, todo mundo. Então o Inocêncio falou: “Francisco Carlos Garisto, está acontecendo isso, isso e isso, mas eu te garanto que não vai ter invasão, tira o pessoal de lá”. Já achei esquisito. Pra que vou tirar os meus homens de lá se ele está me garantindo que não vai ter invasão? Falei: “Tá bom, deputado, tá bom”. Aí eu vou pra porta da Polícia Federal: “Olha, pessoal, vamos revezar, vão ficar quinze aqui e à noite mais quinze e tal”. A Globo estava comlink no local — comunicação direta. É como essas transmissões de futebol, fica aberta para entrar no ar na hora que você quiser. Pensei: “Vai ter invasão, a Globo já está sabendo que vai ter invasão, deixa eu tirar meu povo daqui que não quero que morra ninguém”. E disse: “Pessoal, vamos embora daqui, todo mundo, o Inocêncio Oliveira, presidente da Câmara, garantiu que não vai ter nada aqui”. Quando deu 10 horas da noite, eles chegaram com helicóptero, tanque, na Esplanada dos Ministérios, saiu na edição extra do Jornal Nacional, ficaram fazendo exibição que era para amedrontar, já aproveitava e dava um susto no Congresso todo. Aí invadiram a Polícia Federal de Brasília também, já haviam invadido São Paulo. No mesmo dia, estou almoçando com o Moroni na Câmara, me liga o agente Simão, delegado sindical de Foz do Iguaçu: “Gaga, perdemos a ponte! O Exército está aqui”. Eu falei: “O Exército em Foz do Iguaçu também?” Estranhei porque estávamos fazendo operação padrão lá. Eu: “E vocês estavam aí?” “Estávamos, o que eu faço?” Eu disse: “Sai daí, se manda, fuzil contra metralhadora é caca na certa”. “Mas não deixa ninguém?” “Não, se manda, é Exército, o dono de tudo, ele fica tomando conta do posto agora.” Aí o Moroni me perguntou: “Pô, invadiram Foz do Iguaçu? Vamos ligar pro Pizzatto”. Ele ligou pro Pizzatto, que é do Paraná, tinha interesse. E aí o Pizzatto liga para o ministro do Exército. O ministro disse: “Mandamos invadir porque abandonaram o posto”. E isso foi o que informaram para o presidente da república,o ministro da Justiça e o ministro do Exército. Eu disse: “Mentira, acabei de falar com um agente pelo telefone e ele me perguntou se era para sair! Se perguntou é porque estava lá”.
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O Moroni falou: “Isso está ficando perigoso, não é melhor você repensar essa greve?” Eu disse: “Rapaz, antes de invadirem São Paulo, eu tinha 80 por cento do pessoal em greve, agora está 100 por cento”. À noite vem o Jornal Nacional e aparece a repórter com o microfone na boca do Simão, que tinha falado comigo ao telefone: “O senhor vai fazer o que agora?” “Estávamos trabalhando, temos ordem da federação de trabalhar aqui 30 por cento, o Exército chegou, agora eles vão ficar com o trabalho e com a responsabilidade e vamos embora.” E ele aparece tirando o jaleco e a Globo vai filmando. O presidente, na casa dele, viu esta merda, ligou pro Alexandre Dupeyrat, ministro da Justiça. O Dupeyrat pega e liga pra lá e cá. Estou dormindo, 2 horas da manhã, toca o telefone, era o Moroni e queria que eu fosse na casa dele. Quando entro na casa do Moroni, na sala está sentado o ministro da Justiça, Alexandre Dupeyrat, o Moroni e mais um assessor do Palácio do Planalto que eu não sabia quem era. “E aí, Moroni, onde tá pegando?” “Garisto, o ministro quer falar com vocês.” E o ministro: “Seu Garisto, é o seguinte: o presidente me chamou e está preocupado com o negócio”.. E eu: “Com a greve? É só ele pagar a gratificação para nós e acaba a greve”. “Não, ele está preocupado porque algumas pessoas do Exército estão mentindo para ele. Porque lá em São Paulo fizeram a invasão e falaram que não tinha ninguém, depois ele ficou sabendo que tinha. No Rio Grande do Sul, falaram que os agentes colocaram palito nas fechaduras para ninguém entrar, e depois ficamos sabendo que tinha mais agente federal do lado de dentro que do lado de fora. Mas o pior de tudo foi Foz do Iguaçu, que o presidente recebeu um relatório do ministro do Exército, e isto é confidencial, pelo amor de Deus, que vocês tinham abandonado a fronteira, o presidente autorizou a invasão e na televisão viu que vocês estavam lá. Aí ligou pro ministro do Exército de volta e o Ministro falou que estava havendo confusão e que ele ia ver. O presidente achou muito esquisito isso e eles já tinham pedido para invadir também o Ceará.” Aí o Moroni falou: “Você não acha que isso pode ser outra coisa, Gaga? Que eles estão querendo botar a tropa na rua? No Brasil, quando põem a tropa na rua, para voltar é difícil e eles não têm pretexto para colocar tropa em lugar nenhum.” Eu disse: “Moroni, isso é ficção sua, eu quero saber se o ministro acha isso.” O ministro disse: “Essa é a idéia que o presidente tem e quer a ajuda de vocês pra botar as tropas para fora da PF, porque se ele botar agora desmoraliza e os militares vão chiar; como é que a gente faz para essas tropas irem de volta pro quartel?” Eu falei para o ministro: “Já que a palavra oficial do senhor é de que estão falando em insurreição, golpe, vamos fazer o seguinte: amanhã, o presidente declara que vai negociar e eu falo o que já vinha cumprindo, que vou colocar 30 por cento do efetivo. Não estão falando que invadiram porque não tinha os 30 por cento? Então o presidente sai vencedor, porque ele não pode sair desmoralizado. O que eu quero é a minha gratificação, o meu salário igual da civil, não quero desmoralizar ninguém. Ele dá uma de bravo noJornal Nacional dizendo que não admite baderna e que se botarmos os 30 por cento ele retira as tropas, dá uma bronca na gente em nível nacional, a gente dá uma mijada pra ele, bota os 30 por cento que já tinha e ele manda as tropas para o quartel”. No dia seguinte, o presidente: blablablá e cacete na gente, eu falei: “Pessoal, é o sinal”. Aí eles recolheram as tropas. Mas depois ficamos muito chateados porque eles sacanearam a gente: correram no Supremo para tornar nossa greve ilegal, depois de 64 dias. O ministro da Justiça nos traiu. Aí voltamos ao trabalho. A moçada queria continuar a greve, eu disse: “Agora, não, contra o Supremo é ir contra a lei, aí é revolução”.
Wagner Nabuco – Quem era o ministro do Exército?
Garisto - Era Zenildo Zoroastro de Castro.
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Wagner Nabuco – O Itamar o manteve depois desse episódio?
Garisto - Ficou até com Fernando Henrique, saiu na época da eleição. E o Itamar ficou com a cara-de-pau tão grande porque aconteceu isso, ele viu que cumprimos nossa parte e tinha uma chateação de não ter dado o aumento. Mas causaria a ira do Exército, que também queria aumento. Tanto é que o último decreto que ele assinou foi concedendo gratificação para nós igual à da Polícia Civil. O Romão me processou por greve, segurança nacional etc. e fui demitido, mas o Itamar Franco me anistiou.
“O presidente dá uma de bravo no Jornal Nacional, dizendo que não admite baderna e que se botarmos os 30 por cento ele retira as tropas, a gente dá uma mijada pra ele, bota os 30 por cento que já tinha e ele manda as tropas para o quartel.”
Cláudio Júlio Tognolli – Dos personagens de quem você foi segurança oficial você tem umas memórias boas. Primeiro, aquele episódio de o papa falar com você uma palavra em português que ensinaram ele errado na sacanagem.
Garisto - Foi que nem aquele personagem do Jô Soares, o alemão, que falava “eu está com coceira em meu bunda”, porque falavam pra ele que cabeça era bunda, lembra? Fomos designados para fazer a segurança do papa em Aparecida do Norte. Aí a gente foi para lá um mês antes, organizar a segurança, coisa de que gosto demais. A segunda coisa de que gosto depois de entorpecentes — de combater, esclareça-se — é organizar segurança. Então, a gente organizou tudo lá em Aparecida, até umas árvores foram removidas para pousar o helicóptero com o papa. E fui escalado para ser o que a gente chama na segurança de durex. O durex é aquele que cola no homem, se tiver um grito tem que abafar o homem.
João de Barros – Quando foi essa visita do papa?
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Garisto - 1980, 1981. Ele desceu em Aparecida, o recebi e fiquei com ele o tempo todo. Ele foi aqui, ali, fazer a missa, já estava cansado, aí fomos almoçar num seminário e depois do almoço ele ia dormir. Prepararam um quarto para ele, aquelas beatas bordaram toda a roupa de cama, fizeram um negócio bonito. A programação eu tinha no bolso, onde ele ia dormir, onde ia almoçar etc. e aqueles bispos todos andando junto, tinha bispo que vinha me empurrar para eu não ficar perto dele. O papa então almoçou e entrou no quarto para dormir. No planejamento, ele ia dormir meia hora, depois de meia hora íamos sair para visitar outro seminário…
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Sérgio de Souza – Você ficou dentro do quarto?
Garisto - Não, você fica fora. Botei o papa lá dentro, ele foi descansar, e aquele monte de bispos escalou uns padres para chamá-los dez minutos antes de o papa acordar, queriam tirar um pouco o sapato, tinham andado muito, porque ali ninguém quase anda, aqueles bispos gordos. (risos) Aí os colegas chegaram e falei para eles aproveitarem e dar uma descansada, vinte minutos para todo mundo. E sumiu todo o meu pessoal. Havia segurança externa, a gente faz quatro cordões na rua, interno, subinterno, até chegar no papa, tá louco! Então eu estava tranqüilo lá dentro. Daqui a pouco vejo aquele vulto na janela, vindo. Eu falei: “Porra, é o papa”. Só tinha ele lá dentro. Falei: “Porra, é ele que vem vindo”.. E ele vem amarrando aqueles troços aqui na cintura. E falou: “Como vai?” (imitando o jeito de falar do papa) Eu falei: “Tudo bem”. E pá, terminou de abrir a porta, só está ele e eu. E ele falou: “Eu queria ir no capela, rezar um pouco”. Peguei meu mapa, que você anda com um mapa, e olhei: “A capela fica ali na frente, Santidade, se o senhor quiser ir…”. “Você me leva no capela?” Eu falei: “Levo”. “Então vamos no capela.” Saímos caminhando. “O que é aquele que botou dentro do abóbora? É abóbora?” Eu falei: “É abóbora”. “O que é aquilo outro?” Falei que tinha camarão e ele: “Camarão eu conheço”.. Falei que a outra coisa era lagosta. “Lagosta, né, lagostim?” Íamos conversando sobre o que ele tinha comido no almoço. Daqui a pouco, não sei quem avisou os bispos lá, eles começam a correr e tropeçando, descalços, sem sandália — que pegou todo mundo desprevenido, porque não era hora de ele levantar. Os caras vêm correndo, ele olha pra trás, porque faz barulho, aqueles corredores de seminário, compridos. Olhei pra trás, porque ouvi o barulho, pensei: “Que porra é essa?” E o papa, porque ficou curioso também, olhou: “Eh, lá vêm eles. Lá vêm eles, a minha turma de puxo-sacos”. (gargalhadas) Aí eu olhei para o papa assim, falei: “Não são assessores?” “Puxo-saco não é assessor?” (gargalhadas) Alguém sacaneou o papa, entendeu? Porque pensei que ele tivesse chamado de puxa-saco, o que na verdade é mesmo. Aí eu quis confirmar: “Os assessores, Santidade?” “Sim, mas assessores não chamam aqui puxo-saco?” Quase eu falei que sim: “Não, puxa-saco é quando a pessoa… É, é bem parecido”. (risos)




Cláudio Júlio Tognolli – E quem foi o presidente americano que o Mário Garnero recebeu em casa?
Garisto – Gerald Ford.
Cláudio Júlio Tognolli – E teve uma história de uísque, mais complicada, como foi?
Garisto – Ah, mas isso aí, se eu falar… tem omissão aí, né? Fomos fazer “avançada” na casa do Mário Garnero. “Avançada” é você chegar antes de tudo. Aí quero saber quem são os funcionários, onde fica a caixa-d’água, porque o nego joga um veneno ali, acabou. Quero saber o que vão servir, qual é a comida, quem vai tomar conta da comida. Bota um agente ali: “Olha, você é chefe da comida”. “Onde é o banheiro do homem?” “Ah, o banheiro é ali.” Vamos lá, manda o perito ver se tem bomba no banheiro, o perito saiu, bota um agente. “Ó, aqui não entra mais ninguém.” Você tem que cobrir todo o lugar, é feita a varredura. A casa do Mário Garnero era uma baita mansão no Morumbi, ele ia receber o Gerald Ford à noite — foi no dia em que inaugurou o prédio do Brasilinvest. O Mário Garnero não tinha caído em desgraça ainda com o Roberto Marinho, não estava em disputa da NEC ainda, depois que tomou a NEC virou amigo de novo, né — é outra longa história, viu, Nossa Senhora, essa é cabeluda! Bom, olhando tudo na casa, eu falei: “Abre esse galpão aqui”. “Ah, aí é cadeado, é onde guarda isso, isso e aquilo”. Eu falei: “Abre esse negócio aí, pô, e se tem três iranianos aí dentro esperando o presidente Ford? Se não abrir vou arrombar, e se não arrombar o homem não vem pra cá”. Aí vem o filho do Mário Garnero, e abriu. Quando olhei, rapaz, tinha trinta caixas de uísque: JB, Ballantines. Eu olhei: “Abre essas caixas aí”. Pode ser explosivo, né? Aí abriu, tudo garrafa. Tudo sem o selo de importação brasileiro. Falei: “Pô, isso aqui é muamba!” “Vou dar o flagrante”. Rapaz, veio até o superintendente da Polícia Federal: “Larga isso”. “Então o senhor me dá por escrito que não é para fazer o flagrante.” “Não, não dou nada.” Porque é prevaricação isso. Eu falei: “Não vou prevaricar, então só tem uma solução, é vocês me tirarem da segurança. Vocês dizem que estou liberado, vou pra casa e não sei se foi feito o flagrante ou não, mas pra mim é flagrante e não fico mais aqui”. Não preciso falar que me dispensaram da segurança e não foi feito o flagrante e tomaram o uísque todo lá com o Gerald Ford. Outra passagem também dos quintais foi a do príncipe Charles. A gente estava fazendo a segurança dele o dia todo, e foi aqui, foi acolá, foi ver o Monumento do Ipiranga, até que à noite foi pro Maksoud Plaza e acabou. Olhei o mapa, olhei a agenda, não tem mais nada. Falei: “Vou manter o pessoal de corredor aqui”.
Sérgio de Souza – Aí você é durex de novo, ou não?
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Garisto – Era, e chefe da segurança ali. Aí vem o chefe da segurança do príncipe falar comigo: “Seu Garisto, tudo bem?” “Tudo bem.” E o tradutor traduzindo: “O príncipe quer ir no Sargentelli”. Nas mulatas, estava na maior onda, a boate Oba-Oba, do Sargentelli. Falei: “Mas não tenho programação para fazer isso”. “É, mas ele quer, como é que faz?” “Se for, vai por responsabilidade dele, que aquilo é uma boate pública. A essa hora deve ter um bocado de gente lá, se botar o pessoal pra fora vai dar merda. E não tem programação, eu teria que ir lá, levar perito pra ver.” “Mas é um lugar em que ninguém espera que ele vá, não fica tranqüilo?” “Tranqüilo até a hora em que você me falou, agora já não é mais tranqüilo. Se você me der um documento assinado que lá no Sargentelli é por conta de vocês, vou junto, faço a segurança, não tem problema.” “É, mas aí você não tem responsabilidade.” “Não mesmo, num lugar que não fiscalizei antes não posso garantir nada.” Aí ele entrou e falou para o príncipe, o príncipe quase teve uma síncope: “O quê? E não sei o que”. O cara sai de novo na porta: “Seu Francisco Carlos Garisto, será que não podia mandar um pessoal lá para dar uma olhada?” Aí bota a cabeça entre nós dois o cabecinha de ouro, que parece um grão-de-bico, né? Aí o cara falou em inglês com o segurança dele, não entendi mas percebi que o príncipe estava bravo com alguma coisa. Pelo semblante, a língua é internacional. Perguntei: “O que houve que ele está invocado?” “Ele está perguntando se você quer proibir o príncipe da Inglaterra de sair?” Pensei: “Ele está querendo me ferrar, se ele bota isso no papel eu vou parar sei lá, em Uruguaiana”. E falei: “Não quero proibir o príncipe da Inglaterra de sair, quero preservá-lo para ele chegar a ser rei”. Aí o cara falou isso pra ele e ele ficou todo sem graça. Pedi meia hora, fui lá, preparamos tudo e acabamos indo para o Oba-Oba. E foi uma farra. Saiu na Veja o príncipe dançando com as mulatas, uma zorra desgraçada.
Sérgio de Souza – Voltando para a CPI do narcotráfico, você acha que ela vai acabar em quê?
Garisto – Em pizza não acaba mais, porque houve uma repercussão muito grande, deputado foi cassado e preso, já produziu um resultado razoável dentro dos padrões da impunidade brasileira. Acredito que deva acabar pelas pressões políticas, pelo sistema que existe no país, que não dá para alongar isso muito tempo, já vira carne de vaca, saiu da manchete, só tem um dropezinho lá no canto do jornal, no Brasil uma nova roubalheira encobre o espanto da outra. O que vai acontecer? Vão transformar tudo em inquérito policial para a Polícia Federal , como o caso PC, o orçamento.
João de Barros – Mas há um Pablo Escobar da galera brasileira?
Garisto - Acho que sim. Tem vários cabeções por aí que não são só traficantes, são os financistas também. Só que a CPI não tem condições de fazer essas investigações, a não ser que se transforme numa CPI permanente, você coloque lá cinqüenta policiais federais. Se o governo quisesse limpar, teria que botar cinqüenta homens, avião, dinheiro, a Justiça colaborando com a CPI e alguém orientando também.
Sérgio de Souza - O dossiê das Ilhas Caymán, você viu fumaça ali?
Garisto – Não tenho nada oficial, com nome, não. O pessoal se preocupa muito com Ilhas Caymán, mas o grande fluxo de lavagem de dinheiro do Brasil é o Uruguai. Por que você vai pegar um jatinho e ir até as Ilhas Caymán, se você saí de carro pro Uruguai? Aquilo é furada, tive acesso a algumas coisinhas, o Chelloti investigou pessoalmente, ele esteve nas Ilhas Caymán, o que tinha ali era suspeita de que a grana era do Sérgio Motta, no que ele morreu perdeu o interesse, porque ele era aquele bonachão que todo mundo gostava. Dos demais, ninguém falou e não participei da investigação, mas aquele esquema de Fernando Henrique, Mário Covas, aquilo é uma lenda. O que achei esquisito é eles não se comportarem como inocentes, se comportarem como acusados, mandando o general Cardoso investigar. É por isso que todo mundo fica cabreiro, aí o Chelotti falou que ia ouvir o presidente, já queriam que tirasse o Chelloti. Tem que ouvir o presidente da República se ele é suspeito, ele é um funcionário público que nem eu. O Bill Clinton não foi ouvido? Tenho que pedir ao Supremo uma autorização, tenho que ir na casa dele, mas posso ouvi-lo, sim, como não? Aí queriam tirar o Chelloti porque ele falou na imprensa. E o general aí pediu a cabeça do Chelotti: “Oh, ele quer ouvir o presidente!” Por que eles lembram de qual presidente? Médici, Figueiredo, Geisel, esses são os presidentes que eles têm na cabeça, eles não têm na cabeça que o presidente é um funcionário público, que pode sofrer umimpeachment como o Collor sofreu.
“Aí vem o filho do Mário Garnero, e abriu. Quando olhei, rapaz, tinha trinta caixas de uísque: JB, Ballantines. Tudo sem o selo de importação brasileiro. Falei: ‘Pô, isso aqui é muamba! Vou dar o flagrante’.”
Sérgio de Souza – Voltando ao narcotráfico, que efeitos vem tendo a Senad?
Garisto – Eles nunca deram recursos pra Polícia Federal ter uma delegacia de entorpecentes profissional, atualizada, e criaram a Senad, com um novo chefe, novo subchefe, secretária do chefe, datilógrafa do chefe, motorista do chefe, setor A, B, C, D, E… Criaram toda uma estrutura que não deram para a polícia. Aí você critica que a polícia não funciona? Se você me der condições para fazer determinada coisa e não faço, tudo bem, mas você não me deu nada, diz que não funciono e monta outra? Montaram isso, agora montaram a Abin para colher informações para o presidente, e já fica se metendo com o negócio de drogas?
Sérgio de Souza – É trombada pra todo lado…
Garisto – É. Quem ganha com isso é o tráfico. Causam um tumulto, uma confusão para que não funcione, será que somos tão ignorantes assim, tão burros assim de criar essas coisas para que não funcionem?
Sérgio de Souza – Isso é obra do general Cardoso?
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Garisto – O general Cardoso eu entenderia se ele estivesse pensando como militar. E ele está tentando arrumar atividade para os militares que praticamente estão perdendo, porque o Exército está todo sucateado. Desde o governo Sarney que as Forças Armadas estão sendo sucateadas. Estão querendo acabar com as Forças Armadas, os governantes como um todo, o Fernando Henrique também, e eles estão vendo isso e querendo superar fazendo outras coisas. E o general Cardoso, em vez de organizar as Forças Armadas, quer ir atrás do tráfico de droga, quer criar o serviço de informação para obter informações privilegiadas. Duvido que dê certo. Quem quer fazer tudo acaba não fazendo nada direito.
Sérgio de Souza – Mas em função de que isso, é só por vaidade?
Garisto - Tem um pouco, mas o maior motivo é a estrutura que está se criando em torno da necessidade de o Exército, de as Forças Armadas fazerem alguma coisa. Tem que criar algo pra eles fazerem porque a própria função das Forças Armadas, de proteção, o governo sucateia. Não estou metendo o pau nas Forças Armadas, mas, do jeito que está, elas têm que ser repensadas, para o bem delas próprias, porque vão perder a função. Tem militar passando fome e a população não se preocupa porque não vê a importância dele, tiraram a importância que tinha. Você vai na fronteira e não encontra, ela está aberta para todo mundo. Por que não bota um soldado lá? “Não, lá é da Polícia Federal.” Tem dois homens da Polícia Federal…
Wagner Nabuco – Mas a Senad tem agentes trabalhando para ela?
Garisto – Já tem alguns policiais federais trabalhando lá e tem pessoas contratadas, puxa de um ministério, puxa de outro…
“Tenho uma tese de que existem grupos poderosos, políticos poderosos que não querem uma Polícia Federal forte. Não querem porque é um país de ladrões, de corruptos que não querem dar asas pro gato pegar o rato.”
Wagner Nabuco – A Polícia Federal pode passar quadro para eles?
Garisto – Pela lei, se eles requisitarem, tem que ir. Somos obrigados a passar quadro para eles e para a Abin também. Podem requisitar funcionário de qualquer órgão.
Wagner Nabuco – E o Legislativo aprovou essa lei?
Garisto – Aprovaram por unanimidade. Com a maior cara-de-pau, o Michel Temer e o ACM falam disso.
Wagner Nabuco – Então virou lei, a Abin pode requisitar?
Garisto – Pode requisitar funcionário público federal de qualquer área para trabalhar na Abin. No serviço de informações. E pode andar armado. Você já viu araponga armado? É o único araponga do mundo que pode andar armado. Exceto James Bond. Ele não tem que andar armado, ele vai colher informações para o governo. O presidente vai fazer uma visita a uma cidade do interior: “Ó, está mal lá, vai tomar tomatada, então não vai”. Ele precisa de arma pra fazer isso?
Wagner Nabuco – Você acha que eles têm o objetivo de incorporar todas as funções da Polícia Federal?
Garisto – Não! A intenção é dividir, porque a Federal cresceu muito — e tenho uma tese comigo, não posso dar nomes nunca, mas tenho uma tese de que existem grupos poderosos, políticos poderosos que não querem uma Polícia Federal forte. Que todas as vezes em que ela entre em evidência, que começa a pegar recursos, eles arrebentam com a Federal. Não querem uma Polícia Federal forte porque é um país de ladrões, de corruptos que não querem dar asas pro gato pegar o rato. Querem é uma polícia esfacelada, dividida, corrompida, fraca. Há muitos anos estavam querendo criar uma secretaria de entorpecente, agora conseguiram, e querem criar um departamento de estrangeiro, um departamento de polícia fazendária e esfacelar a Polícia Federal.
Wagner Nabuco – Tem isso na estrutura da Abin?
Garisto – Na estrutura da Abin não tem nada disso. Eles querem criar outro departamento, como criaram a Senad, ela é o início disso, que eu venho denunciando há muito tempo. Querem criar uma polícia aeroportuária, porque a Infraero é o braço civil da Aeronáutica, e vai ser privatizada, é o cabidão de emprego da Aeronáutica. Querem tomar a fiscalização da Polícia Federal. Querem criar a polícia aeroportuária subordinada à Aeronáutica. Isso é tudo corporativismo. Vão criar cabidão que não funciona, como é essa Senad. Ela só pode funcionar através da Polícia Federal, mas tem o dinheiro e a Polícia Federal não tem. Ela que coordena a operação, mas precisa da Polícia Federal para operar. Ou extingue uma ou extingue outra. Teve agora essa operação em Pernambuco e botaram o general Serra para comandar, um neófito no assunto.
Wagner Nabuco – Ele coordenou qual operação?
Garisto – A Mandacaru. Ele chegou lá no local, é a mesma coisa que soltar uma galinha dentro de um cinema, ela não sabe onde está. Nessa Operação Mandacaru, ele requisitou um monte de aviões. “Mas, general, avião é caro!” “Tem que ter, tem que ter.” Os aviões foram pousar no aeroporto de Guararapes, Recife. “Que você vai fazer com esses aviões?” “Tem que ter.” Aí pegaram os helicópteros, puxaram dois de Manaus — olhe onde está Manaus, a diferença de distância de Recife, Cabrobó, Salgueiro, ali no triângulo da maconha. Aí, mais quatro helicópteros do Rio de Janeiro, pára-quedista, aquele monte de pára-quedista. O que um pára-quedista vai fazer numa plantação de maconha? Bota a cabeça pra funcionar: ele vai saltar de pára-quedas lá no meio da plantação? Se tem mesmo traficante lá, os caras enchem ele de bala no ar. Ainda bem que não tinha traficante. Afinal, eles assistem Jornal Nacional, Bóris Casoy e já sabiam da operação quinze dias antes. Foram gastos 7,5 milhões de dólares para fazer essa brincadeira. A Federal tem planejamentos pra gastar 120.000 numa área, 80.000 em outra e eles não dão. O dinheiro que a gente tinha com a arrecadação que era dos traficantes está indo pra eles, onde eles estão gastando não sei, devem ter gasto tudo na Mandacaru. Pra juntar 7,5 milhões de novo vai demorar cinco anos. Para que envolver o aparato militar nisso aí? Para mostrar para os EUA, pois os EUA querem que envolvam as Forças Armadas nisso. Porque os EUA querem fazer frente à Colômbia. Você pensa que estão preocupados com o tráfico na Colômbia? Estão preocupados com a guerrilha sufocando o regime democrático da Colômbia. Que com a guerrilha vão perder o controle da Colômbia. Estão preocupados com as FARC, aqueles grupos de esquerda estão tomando cidades, controlando um terço do país. Eles querem envolver o Brasil para não precisar vir aqui. Aí o Brasil se envolve, outro dia quase entrou de gaiato: montaram uma operação que quase virou realidade, matam um soldadinho daqueles lá e aí a gente entra em guerra com a Colômbia. É assim que eles querem. E o Brasil entra como um bando de otários, e quando não entra eles mandam o FMI pressionar. A pressão vem via empréstimo que estava saindo e não sai mais. Pra mim, o grande lobo do mundo são eles. Não é discurso de esquerda, não, pra mim é realidade isso. O que eles fazem com a gente é uma piada. Na escala menor, assim, de relações públicas, de relações internacionais, de polícia… eles acham que somos todos lixo, tudo analfabeto, tudo ignorante, comedor de banana. Não dão valor nenhum pra você, não. E o governo entra. Essa Senad foi criada pelo presidente Fernando Henrique pra dar uma satisfação para o governo americano: “Agora tem uma secretaria só de drogas”. Botaram lá um homem íntegro, o Maierovitch, mas ele é um teórico de crime organizado da Itália, entende de Camorra, N’Dranguetta, Máfia siciliana, napolitana, mas em termos de Brasil não sabe onde está.
Sérgio de Souza – Você trabalhou no caso do Abílio Diniz, que você mencionou antes?
Garisto – Não no seqüestro, mas a gente trabalhou numa investigação que foi feita em Brasília em relação à parte política, para saber de envolvimentos, e de repente parou. Quando a investigação estava ficando boa, parou, ficou o dito pelo não dito, ninguém queria saber mais, já estava todo mundo eleito, né? Começamos a investigar por que apareceu uma camisa do PT lá, e eles ficaram apavorados com o negócio da camiseta.
Cláudio Júlio Tognolli – Eu que dei a foto no Jornal da Tarde e o Suplicy me processou.
Garisto – Eles queriam saber se tinha procedência mesmo, de repente algum maluco do PT que se juntou nos malucos num seqüestro. Aí eu falei com alguns policiais civis que trabalharam no caso e eles: “Que nada, essa camiseta botaram nos caras, não tem nada a ver”. A Globo gostou da brincadeira e meteu de dois em dois minutos no ar. Agora, como é que tinham a camiseta, onde foram arrumar a camiseta? Então existe uma vontade premeditada de fazer as coisas e existem organismos que apóiam. Aí vem o Comando Delta de novo. E funciona. O Comando está gostando do Ciro agora.
João de Barros – O Comando Delta está pro Ciro?
Garisto – É ficção minha. Mas o Comando está gostando do Ciro, vamos ver até quando. Se ele for bem até lá, vai ser ele mesmo, porque, entre ele e o Lula, o pessoal não quer o Lula, nem ninguém do PT, nem PDT, porque o Papai não quer, né? Já pensou o Brizola de presidente? Rapaz, nos meus 48 anos de vida, com relação à imprensa, pra mim o fato mais importante foi quando o Cid Moreira foi ao Jornal Nacional: 26

“Atendendo a determinação judicial”… Ah, a cara do Cid Moreira! Era o direito de resposta do Brizola. A juíza determinou que fosse o mesmo locutor, no mesmo horário e com a mesma duração. Eu estava na sala, acho que assinando um cheque, e aí: “Atendendo a determinação judicial”… Eu disse: “Não acredito!” Aí o Brizola descascou, na boca do Cid Moreira. Quer dizer, é sinal de que o Brasil tem futuro, vai chegar em algum lugar. A Justiça, o sistema funcionou, não é? Hoje você vê o deputado Nilmário Miranda fazer palestras na Academia de Polícia, sobre direitos humanos, tortura etc., quer dizer, as coisas têm cura, é só você cuidar da política. O sistema tem cura, mas é lento. O brasileiro é lento. É um país sui generis, diferente, não adianta querer fazer o Brasil diferente, ele é assim, um garoto de quinhentos e poucos anos.
Entrevistadores: Verena Glass, Marina Amaral, Cláudio Júlio Tognolli, Mylton Severiano, João de Barros, Wagner Nabuco, André Bertolucci e Sérgio de Souza.

Friday, November 5, 2010

Como funciona um diferencial

Não subestime os mais velhos...

Procurando uma imagem sobre o funcionamento de um diferencial, acabei encontrando esse vídeo, de 1937. Não se deixe surpreender pela data. O vídeo é sensacional, incrivelmente didático. Fico imaginando o que os criadores dele fariam com os recursos de hoje.

Alguns acharam ridículas as sequências com as motos e as pessoas correndo no final, mas pense nisso no contexto da época, sem animações computadorizadas ou coisa do tipo, e o criador conseguiu ilustrar muito bem a necessidade e o funcionamento do diferencial com ele.



Thursday, November 4, 2010

Counterinsurgency: After smart weapons, smart soldiers

After smart weapons, smart soldiers


REBELLION is as old as authority itself, and so therefore is the business of putting it down. Nearly 2,000 years ago Jewish militants—known as Zealots, hence the English word—took up arms against the world's greatest power and terrorised those deemed collaborators. The Romans dealt with the revolt in Palestine in familiar fashion, laying waste any town that resisted, prompting many to commit suicide rather than suffer capture and, in 70AD, destroying the great Temple in Jerusalem and taking its treasures. “While the holy house was on fire,” records Josephus, “everything was plundered that came to hand, and ten thousand of those that were caught were slain...children and old men, and profane persons and priests, were all slain in the same manner.”

Modern Western armies cannot, as the Romans did, make a wasteland and call it peace. Modern wars are complex affairs conducted “among the people” and, as Sir Richard Dannatt, head of the British army, put it recently, “in the spotlight of the media and the shadow of international lawyers”. In Iraq in the 1920s, Britain's air force pioneered the use of “air policing” to put down rebellious tribesmen on the cheap; today the use of air power often carries big political costs. The greater the accuracy of modern weapons, the louder the outcry when they nonetheless kill or wound civilians. And the wider the reach of the internet, the bigger the impact of propaganda videos showing insurgent attacks against Western forces, regardless of civilian casualties. The British who fought the Mahdist religious rebels in Sudan in the 19th century had no need to worry about provoking attacks in London; today such a campaign would be seen as another front in the jihadagainst the West.


Many others, though, regard today's conflicts as variations on age-old irregular warfare, not least Mao Zedong's “protracted war” in China, the Spanish guerrilla attacks against Napoleon's forces in Spain, or even America's war of independence from Britain. Whatever the definition, “small wars” can have big effects. In the past six decades the British have been driven out of Palestine, the French from Algeria, the Americans (and French) from Vietnam, the Russians from Afghanistan and the Israelis from Lebanon.

Can America and its Western allies avoid similar humiliation in Iraq and Afghanistan? Martin van Creveld, an Israeli military historian, argues that insurgencies have been almost impossible to defeat ever since Nazi Germany failed to suppress Josip Broz Tito's partisans in Yugoslavia. Winning such wars requires one of two tactics: extreme restraint and patience, as shown by the British over nearly 38 years in Northern Ireland; or extreme brutality, as shown by Syria in 1982 when the army destroyed much of Hama, a stronghold of Islamist rebels, killing at least 10,000 people. Any other method, says Mr van Creveld, risks being too harsh to win the support of the population but not harsh enough to cow it into submission.

This rule is too stark. Experts point to successes such as the end of the insurgency in El Salvador, the collapse of the Shining Path rebels in Peru, the end of the civil wars in Mozambique and Angola, the demise of the Red Brigades in Italy and of the Red Army Faction in Germany. Much of this debate revolves around the meaning of victory and defeat, as well as the definition of counter-insurgency, civil war, counter-terrorism and so on. One school of thought holds that America's forces had largely defeated the Vietcong in Vietnam when its politicians lost the will to stop North Vietnam's conventional army from overrunning the south. That is to miss the point: in counter-insurgency one side can win every battle, yet lose the war.


LESSONS UNLEARNT


Such arguments are a hot topic at Western military colleges, especially in America. More has been written on counter-insurgency in the past four years than in the previous four decades. The study of small wars was largely abandoned by the United States army in the 1970s as commanders promised “no more Vietnams” and concentrated instead on how to defeat the massed Soviet armies. America's humiliating retreats from Lebanon in 1983 and Somalia in 1994 convinced many Americans that, as Colin Powell, a former general (and later secretary of state), once put it, America should not get involved in “half-hearted warfare for half-baked reasons”. The swift ejection of Iraq's forces from Kuwait in 1991 reinforced such beliefs. Counter-insurgency became a secondary task undertaken mainly by American special forces, which sometimes offered training to friendly governments.


Given the difficulties in Iraq and Afghanistan, American officers are relearning the history of their own interventions in Latin America and, more important, the lessons of British imperial policing. Why, American experts asked, did Britain succeed against communist revolutionaries in Malaya in the 1950s, whereas America failed to defeat the communists in Vietnam in the 1960s and 1970s?

In his 2002 book “Learning to Eat Soup with a Knife” (a title drawn from T.E. Lawrence's “Seven Pillars of Wisdom”, describing the messiness of waging “war upon rebellion”), John Nagl, an American lieutenant-colonel, concluded that British soldiers were better than the Americans at learning from their mistakes. General Sir Gerald Templer, the British high commissioner in Malaya, argued that “the shooting side of the business” was only a minor part of the campaign. Coining a phrase, he suggested that the solution “lies not in pouring more troops into the jungle, but in the hearts and minds of the people”. In contrast, says Colonel Nagl, the Americans in Vietnam remained wedded to “unrestrained and uncontrolled firepower”, despite some work with small units that were deployed in border villages and civil-military reconstruction projects.

British officers are less impressed, saying their predecessors often repeated their errors. During the troubles in Northern Ireland, the arrival of British troops in 1969 was at first welcomed by Roman Catholics. But the army's heavy-handed methods, such as large cordon-and-search operations and the shooting of 13 civilians on Bloody Sunday in 1972, pushed many Catholics into the arms of the Provisional Irish Republican Army.

In any event, the American army and marines have produced a new counter-insurgency manual. One of its authors, General David Petraeus, is now in charge of the “surge” in Iraq. It may be too late to turn Iraq round, and Afghanistan could slide into greater violence. But the manual offers some comfort: it says counter-insurgency operations “usually begin poorly”, and the way to success is for an army to become a good “learning organisation”.

According to Mao's well-worn dictum, guerrillas must be like fish swimming in the “water” of the general population. T.E. Lawrence, helping to stir up the Arab revolt against Turkish rule during the first world war, described regular armies as plants, “immobile, firm-rooted, nourished through long stems to the head”. Guerrillas, on the other hand, were like “a vapour”. A soldier, he said, was “helpless without a target, owning only what he sat on, and subjugating only what, by order, he could poke his rifle at”.

Western armies have unsurpassed firepower, mobility and surveillance technology. Guerrillas' main weapons are agility, surprise, the support of at least some sections of the population and, above all, time. The warren of Iraqi streets and the fortified compounds of Afghanistan compensate for the insurgents' technological shortcomings. The manual, however, attempts to change the army mindset: in fighting an enemy “among the people”, it says, the central objective is not to destroy the enemy but to secure the allegiance of the citizenry. All strands of a campaign—military, economic and political—have to be strongly entwined.

Much of this thinking is drawn from the British experience in Malaya, but conditions today are vastly different. In Templer's day, securing “hearts and minds” did not mean just acting with kindness to win the people over; it also included coercion. Hundreds of thousands of ethnic Chinese, among whom the insurgents mainly operated, were uprooted and moved into guarded camps known as “new villages”, where they were offered land. If the British could not find the fish, they resorted to removing the water.

They also sought to starve insurgents by restricting supplies of food to the population. In some areas rations of rice were handed out in cooked form so they would spoil before they could reach fighters in the jungle. Such measures are unthinkable today. Even the building of separation walls to reduce sectarian killings in Baghdad arouses Iraqi opposition. Checkpoints and curfews now have limited impact.

Templer was both the civil and the military boss. He emphasised policing rather than military operations, and the use of indigenous forces. The majority Malay population largely supported the British. In a peninsula, the borders were relatively well controlled and the rebels had few external sources of support. Above all, the British had full sovereignty over Malaya. They could undercut the insurgents' claim to be fighting colonialism by guaranteeing equal rights, and by promising—and eventually granting—independence.

By contrast, the borders of Iraq and Afghanistan are permeable. Some neighbours are either hostile to the West (Iran) or unable to remove insurgent havens (Pakistan). The powers of America's Coalition Provisional Authority in Iraq lasted a year, long enough for America to make egregious errors, such as disbanding the Iraqi army and removing former Baathists, but not long enough to correct them.


DISCONTINUITY OF COMMAND


In Iraq the American effort is split between the military operations overseen by the generals and the civil and political work conducted by the embassy. In Afghanistan leadership is even more divided. There are two separate Western military commands—the NATO-led International Security Assistance Force, which provides the bulk of the troops, and the American-led Operation Enduring Freedom, which concentrates on hunting “high-value targets”. Alongside these are a myriad of poorly co-ordinated reconstruction agencies.

Coalitions add further complications. Britain, America's only ally of any military significance in Iraq, is slowly leaving. And in Afghanistan, where boots on the ground are in short supply, NATO is wobbly. Many allies refuse to join a fight that has been waged mainly by American, British and Canadian forces, and several are under domestic pressure to bring their troops home. Overt colonialism has died, and with it have gone the large colonial armies. Counter-insurgency requires large numbers of security forces. But the West's all-volunteer forces have progressively cut expensive manpower in favour of technology. They have become infinitely better at finding and destroying things; but the best source of intelligence on the ground is often the soldier on the street with his “Eyeball mark-1”.

Nationalist and pan-Islamic sentiments are much stronger than in the past. Information technology has helped jihadists spread the “single narrative” that Muslims everywhere are under attack, a contention reinforced by America's rhetoric about the “global war on terror”. The internet provides a new and unassailable sanctuary from which to propagandise, organise and share tactics.

Still, the generals plead for more time. They point to Iraq's Anbar province, where Sunni tribes are turning against al-Qaeda. In Afghanistan, says Britain's General Dannatt, “strategic patience” is essential. American officers quote internal studies showing that it takes nine years on average (and often much longer) to defeat insurgencies. Yet perseverance is no guarantee of victory; many campaigns have taken as long, if not longer, to lose.

A growing body of opinion, both in the Pentagon and outside, has concluded that insurrections are best fought indirectly, through local allies. “It is extremely difficult for Western powers to defeat insurgencies in foreign countries in modern times,” says Max Boot, author of “War Made New” (2006). “At the same time, there are very few instances of insurgencies overthrowing a local government. The problem is that Western armies lose the will to maintain imperial domination.” Western forces always have the option of going home; for local governments, though, fighting insurgents is a matter of survival.

A better model than Malaya, argues Mr Boot, is the end of the Marxist insurrection in El Salvador in 1992. American forces did not lead the fighting. Instead, a small contingent of under 100 advisers from America's special forces helped the democratising government reorganise its army and avoid the fate of nearby Nicaragua, which fell to the Sandinistas in 1979. This approach has its own difficulties: America's reputation was tarnished by right-wing Salvadorean death-squads. In the end it was external political factors—the demise of the Sandinistas in Nicaragua, partly caused by an American-backed insurgency, and the collapse of the Soviet Union—that helped bring about a settlement and the incorporation of the guerrillas into a new-found democracy.

David Kilcullen, an Australian colonel and General Petraeus's main adviser on counter-insurgency, says fighting insurgencies in other people's countries is hard. “Running Baghdad is not like trying to police New York City; it's like the Iraqi police trying to run New York City.” Tellingly, he says, Indonesian forces successfully put down an insurrection by the Islamist Darul Islam movement in the 1950s and early 1960s, but could not quell the resistance to their annexation of East Timor.

The dilemma for Western forces in Iraq and Afghanistan is that, though they may lack the wherewithal to win, the national governments they seek to help are unable to stand up on their own. At best, Western armies can create the political space to build viable governments. But this has proved difficult enough even where the fighting has stopped and the main political forces have been co-operative (or at least acquiescent)—as in Bosnia and East Timor. It may be impossible under sustained fire.


MORE BRAIN, LESS BRAWN


Although most armies have now relearnt the limits of force and the importance of the “comprehensive approach”, commanders complain that other branches of government have not. In a recent article, General Peter Chiarelli, an adviser to Robert Gates, America's secretary of defence, says more money has to be spent not on the Pentagon but on the “non-kinetic aspects of our national power”. He recommends building up the “minuscule” State Department and USAIDdevelopment agency (so small it is “little more than a contracting agency”), and reviving the United States Information Agency.

As the American army expands, some thinkers, such as Colonel Nagl, say it needs not just more soldiers—nor even linguists, civil-affairs officers and engineers—but a fully fledged 20,000-strong corps of advisers that will train and “embed” themselves with allied forces around the world. The idea makes army commanders blanch, but they do not question the underlying assumption. Insurgencies may be the face of war for the West in the years ahead. Even if America cannot imagine fighting another Iraq or Afghanistan, extremists round the world have seen mighty America's vulnerability to the rocket-propelled grenade, the AK-47 and the suicide-bomber.

The Economist

Wednesday, November 3, 2010

Ineficácia Militar Árabe

Ineficácia militar árabe

Os árabes são o povo que talvez mais consistentemente envolveu-se em conflitos armados e mais consistentemente sofreu derrotas. Nos conflitos modernos isso é uma constante. As vitórias, até o século X, devem-se muito mais ao fato de enfrentarem inimigos enfraquecidos e pelo seu conhecimento do deserto do que a qualquer outra coisa.

Um dos livros mais interessantes sobre história e estratégia militar que li nos últimos tempos busca responder esta questão. O livro é o "Arabs at War, Millitary Effectiveness, 1948-1991", Kenneth M. Pollack.

Desde a segunda guerra mundial, o Oriente Médio foi provavelmente a região mais conturbada, quase todos os conflitos com envolvimento dos árabes em alguma escala, e em todos eles a ineficácia surpreende. Alguém pode observar o histórico militar de Egito, Iraque, Arábia Saudita, Jordânia, Líbia e Síria, em combate com israelenses, europeus, americanos, persas, curdos, africanos, e até entre eles mesmos, e é sempre impressionante como atuam com ineficácia de maneira bem consistente, independente do adversário e das condições.

Dois exemplos extremos tanto em caso de vitória quanto derrota são a Síria na Guerra do Yom Kipur, e o Iraque no conflito com o Irã, e o final decisivo do conflito entre Líbia e Chade no norte do país em 1987-1988.

A ofensiva da Síria contra as forças israelenses no Golan em 1973 é comparável em disparidade à Operação Bagration pela URSS contra as tropas da Alemanha na Bielorússia durante a segunda guerra mundial. Um exército de veteranos defendendo linhas bem estabelecidas e fortificadas contra uma ofensiva massiva de surpresa com grande superioridade numérica. Os soviéticos tiveram sua maior vitória, enquanto os sírios tiveram sua pior derrota em condições de superioridade similares.

O Iraque passou praticamente uma década enfrentando o Irã com grande superioridade numérica e tecnológica, mas só conseguiu uma vitória em 1988 usando armas químicas em larga escala, matando cerca de 20,000 soldados iranianos, quase 1/5 das forças, e criando forças locais com disparidade de até 30 para 1 em relação aos iranianos.

No Chade, depois que os líbios perderam seu apoio entre os dissidentes chadianos, ainda contavam com decisiva vantagem numérica e tecnológica. Os chadianos não tinham tanques, blindados, aviões e artilharia, e não sabiam usar bem o pouco equipamento de infantaria que tinham. O único armamento pesado e transporte de que dispunham eram pick-ups Toyota com mísseis antitanque Milan fornecidos pela França na última hora, e confiavam na força aérea francesa e stingers fornecidos pelos EUA para defender-se dos líbios. Mesmo com a vantagem em todos os aspectos, os líbios sofreram uma derrota completa no norte do país. A principal base foi abandonada com muito equipamento ainda funcionando, soldados líbios morriam ao fugir pelos próprios campos minados, e a força aérea líbia tinha de destruir o próprio equipamento para evitar que fosse utilizado pelo inimigo.

Ou seja, independente do oponente e de vitória ou derrota, as forças árabes sempre atuam com muito menos eficácia do que esperado para seu número, equipamento e posição. Qual o real motivo disso?

Eu nunca havia pensado muito a fundo no assunto, e por conhecer melhor o conflito árabe-israelense, aceitava a explicação de cada guerra em particular, sem me preocupar muito nisso como característica dominante. Agora li um livro que trata especificamente do assunto, falando dos diversos conflitos e achei que valia a pena enumerar algumas das explicações que achei mais relevantes para discussão. Algumas das explicações auxiliam até a entender melhor outros conflitos.


1. O argumento mais óbvio é o treinamento das tropas. Alguns dos pontos dele são relevantes para outros argumentos. Como a maioria dos países árabes são monarquias e/ou ditaduras, a maior parte das forças armadas recebe um treinamento voltado para lidar mais com problemas internos, manifestações, tentativas de golpe e revoluções, do que uma operação militar convencional. Alguns analistas argumentam que o treinamento não é só inapropriado, mas inadequado mesmo. Na Guerra do Yom Kipur os egípcios treinaram por anos para fazer a mesma coisa, e fizeram bem feito quando era exatamente como esperava, mas não conseguiram fazer mais nada direito quando saiu dos planos.

2. Outro problema relacionado é que pelo fato da maioria desses países serem monarquias e/ou ditaduras muitos oficiais são apenas indicados, não chegando à posição por competência. Adicionalmente, por medo de um golpe de estado vindo dos militares, muitas indicações são feitas para deliberadamente gerar algum atrito e evitar uma união que levaria a isso. Esse atrito acaba indo para o campo de batalha também e elimina qualquer iniciativa. Soldados e oficiais preferem falhar do que tomar decisões por conta própria. Qualquer assunto militar é considerado segredo e oficiais são transferidos de forma imprevisível antes de poder formar alianças. Essa característica também presente na URSS acabou reforçada pelo envolvimento com os soviéticos pela maioria dos países árabes.


3. Isso gera um outro problema pois leva o conflito de classes que existe na sociedade para o campo de batalha, gerando hostilidades entreos homens . Para os homens de nível social baixo que ingressam nas forças armadas buscando oportunidades de ascenção social, um oficial indicado ao cargo representa uma ofensa. Pelo outro lado, a mesma discriminação social que haveria na sociedade civil acaba havendo entre o oficial indicado e seus homens. Isso é comum no Egito, onde há muitos relatos de oficiais que, sem nenhum laço com seus homens, simplesmente os abandonam no campo de batalha. Liderança não é considerada uma disciplina a ser aprendida, mas apenas assume-se que um oficial vindo de uma classe social superior seja um líder nato. O conflito entre oficiais também é constante por razões semelhantes, existindo uma disputa, e não há o mesmo grau de confiança que existe entre militares ocidentais.


4. A consequência mais óbvia desses três argumentos é a pouca coesão dos árabes em pequenas formações, a incapacidade de permanecer juntos e continuar a combater como grupo no calor da batalha, algo essencial na guerra moderna. Esse é o principal argumento que eu conhecia, porque é geralmente usado pelos militares israelenses. Desde a Campanha do Sinai em 1956, ficou claro para os israelenses como as unidades árabes perdiam sua coesão e deixavam cada homem por si ao sofrer ataques precisos e inesperados, algo que até ajudou a moldar a doutrina militar israelense a combater dessa forma.

5. Como muitos oficiais acabam chegando ao cargo por indicação, sem competência para tal, mesmo que permaneçam com as tropas, uma liderança tática rápida e eficiente é crucial para a eficácia nas guerras modernas, exigindo uma descentralização do comando e sub-oficiais competentes que consigam se adaptar com iniciativa e rapidamente às situações e conduzir tudo com fluidez. Isso é evidente em particular na Guerra do Yom Kippur, em que devido à surpresa adicional vê-se que tanto os Egípcios quanto Sírios lutaram com eficácia enquanto seguiam os planos originais, mas o nível despencou depois do ponto em que a reação israelense começou a ganhar momento e as decisões tinham que ser mais rápidas.


6. Outro ponto é a ineficácia dos árabes em adquirir informações sobre o inimigo e repassá-las eficientemente através da cadeia de comando. Não raro, em várias guerras, informações são deliberadamente distorcidas ou fabricadas para exagerar sucessos e ocultar falhas, principalmente por medo de represálias. Isso foi muito comum na guerra Irã-Iraque e na Guerra dos Seis Dias, chegando até mesmo ao topo da hierarquia. Difícil saber até onde foi fanfarronice e até onde foi falha de inteligência, mas por exemplo, a Jordânia chegou a lançar ataques fadados ao fracasso porque Egito anunciava que seus aviões já estavam bombardeando Tel Aviv quando na verdade foram destruídos no chão.


7. Muitos dos países árabes tem um nível educacional muito abaixo daquele dos países que lhes fornecem equipamento militar, e hoje as guerras dependem muito mais do conhecimento e manuseio eficaz dos equipamentos. Operar um tanque ou avião da segunda guerra mundial parece brincadeira de criança perto de todos os equipamentos computadorizados dos tanques e aviões modernos. Um argumento usado para explicar a ineficácia dos árabes em conflitos que dispõe de grande superioridade tecnológica, é não conhecer e explorar toda a capacidade dos equipamentos que dispõe devido às deficiências educacionais e ao treinamento inadequado. O nível de segredo e a paranóia constante que impera sobre todos os assuntos militares também impede a descentralização de manutenção e reparos de equipamentos, algo essencial nas guerras modernas.

Todos esses fatores, e outros que não foram comentados, culminam em uma esfera de ineficácia em todos os aspectos, desde o alto comando até o último soldado. Governantes impedem interação e treinamentos conjuntos entre as forças por medo de golpes, comandantes tentam microgerenciar qualquer aspecto das suas forças com medo de delegar autoridade, oficiais vêem soldados com desprezo e não se importam com eles e vice-versa.

Essas técnicas podem funcionar para manter uma ditadura, mas não para enfrentar um inimigo externo ou para sustentar uma democracia, daí a dificuldade em implantá-la nesses lugares.

Sunday, October 17, 2010

Médico americano afirma que a pesquisa com animais atrasa o avanço do desenvolvimento de remédios


 
16/10/2010 - 00:55
 

Especial VEJA

“A pesquisa científica com animais é uma falácia”, diz o médico Ray Greek

Médico americano afirma que a pesquisa com animais atrasa o avanço do desenvolvimento de remédios

Marco Túlio Pires
"As drogas deveriam ser testadas em computadores, depois em tecido humano e daí sim, em seres humanos. Empresas farmacêuticas já admitiram que essa será a forma de testar remédios no futuro."
Arquivo Pessoal
Ray Greek
Ray Greek
Há 20 anos, Ray Greek abandonou o consultório para convencer a comunidade científica de que a pesquisa com animais para fins médicos não faz sentido. Greek é autor de seis livros, nos quais, sem recorrer a argumentos éticos ou morais,  tenta explicar cientificamente como a sua posição se sustenta. Em 2003 escreveu Specious Science: Why Experiments on Animals Harm Humans (Ciência das Espécies: Por que Experimentos com Animais Prejudicam os Humanos, ainda não publicado no Brasil) e o mais recente em 2009: FAQs About the Use of Animals in Science: A Handbook for the Scientifically Perplexed(Perguntas e Respostas Sobre o Uso de Animais na Ciência: Um Manual Para os Cientificamente Perplexos). Ele garante que sua motivação não é salvar os animais, mas analisar dados científicos.  
Além disso, Greek uniu esforços com outros médicos americanos e fundou a Americans for Medical Advancement, uma organização sem fins lucrativos que advoga métodos alternativos ao modelo animal. Em entrevista para VEJA, ele diz porque, na opinião dele, a pesquisa com animais para o desenvolvimento de remédios não é necessária.
O senhor seria cobaia de uma pesquisa que está desenvolvendo algum remédio?
Claro. Se a pesquisa estivesse sendo conduzida eticamente eu seria voluntário. Milhares de pessoas fazem isso todos os dias. Por vezes elas doam tecido para que possamos aprender mais sobre uma doença, em outros momentos ingerem novos remédios para o tratamento de doenças na esperança que a nova droga apresente alguma cura.

E se o medicamento nunca tivesse sido testado em animais?
A falácia nesse caso é de que devemos testar essas drogas primeiro em animais antes de testá-las em humanos. Testar em animais não nos dá informações sobre o que irá acontecer em humanos. Assim, você pode testar uma droga em um macaco, por exemplo, e talvez ele não sofra nenhum efeito colateral. Depois disso, o remédio é dado a seres humanos que podem morrer por causa dessa droga. Em alguns casos, macacos tomam um remédio que resultam em efeitos colaterais horríveis, mas são inofensivos em seres humanos. O meu argumento é que não interessa o que determinado remédio faz em camundongos, cães ou macacos, ele pode causar reações completamente diferentes em humanos. Então, os teste em animais não possuem valor preditivo. E se eles não têm valor preditivo, cientificamente falando, não faz sentido realizá-los.

Mas todos os remédios comercializados legalmente foram testados em animais antes de seres humanos. Este não é um caminho seguro?
Definitivamente não. As estatísticas sobre o assunto são diretas. Inclusive, muitos cientistas que experimentam com animais admitiram que eles não têm nenhum valor preditivo para humanos. Outros disseram que o valor preditivo é igual a uma disputa de cara ou coroa. A ciência médica exige um valor que seja de pelo menos 90%. 

Esses remédios legalmente comercializados e que dependeram de pesquisas científicas com animais já salvaram milhões de vidas...
A indústria farmacêutica já divulgou que os remédios normalmente funcionam em 50% da população. É uma média. Algumas drogas funcionam em 10% da população, outras 80%. Mas isso tem a ver com a diferença entre os seres humanos. Então, nesse momento, não temos milhares de remédios que funcionam em todas as pessoas e são seguros. Na verdade, você tem remédios que não funcionam para algumas pessoas e ao mesmo tempo não são seguros para outras. A grande maioria dos remédios que existe no mercado são cópias de drogas que já existem, por isso já sabemos os efeitos sem precisar testar em animais. Outras drogas que foram descobertas na natureza e já são usadas por muitos anos foram testadas em animais apenas como um adendo. Além disso, muitos remédios que temos hoje foram testados em animais, falharam nos testes, mas as empresas decidiram comercializar assim mesmo e o remédio foi um sucesso. Então, a noção de que os remédios funcionam por causa de testes com animais é uma falácia. 
 
Se isso fosse verdade os cientistas já teriam abandonado o modelo animal. Por que isso não aconteceu ainda? 
Porque o trabalho deles depende disso. Nos Estados Unidos, a maior parte da pesquisa médica é financiada pelo Instituto Nacional de Saúde [NIH, em inglês]. O orçamento do NIH gira em torno de 30 bilhões de dólares por ano. Mais ou menos a metade disso é entregue a pesquisadores que realizam experimentos com animais. Eles têm centenas de comitês e cada comitê decide para onde vai o dinheiro. Nos últimos 40 anos, 50% desse dinheiro vai, anualmente, para pesquisa com animais. Isso acontece porque as próprias pessoas que decidem para onde o dinheiro vai, os cientistas que formam esses comitês, realizam pesquisas com animais. O que temos é um sistema muito corrupto que está preocupado em garantir o dinheiro de pesquisadores versus um sistema que está preocupado em encontrar curas para doenças e novos remédios.

Onde estaria a medicina se não fosse a pesquisa com animais?
No mesmo lugar em que ela está hoje. A maioria das drogas é descoberta utilizando computadores ou por meio da natureza. As drogas não são descobertas utilizando animais. Elas são testadas em animais depois que são descobertas. Essas drogas deveriam ser testadas em computadores, depois em tecido humano e daí sim, em seres humanos. Empresas farmacêuticas já admitiram que essa será a forma de testar remédios no futuro. Algumas empresas já admitiram inúmeras vezes em literatura científica que os animais não são preditivos para humanos. E essas empresas já perderam muito dinheiro porque cancelaram o desenvolvimento de remédios por causa de efeitos adversos em animais e que não necessariamente ocorreriam em seres humanos. Foram bilhões de dólares perdidos ao não desenvolver drogas que poderiam ter dado certo.

Como as pesquisas deveriam ser conduzidas?
Deveríamos estar fazendo pesquisa baseada em humanos. E com isso eu quero dizer pesquisas baseadas em tecidos e genes humanos. É daí que os grandes avanços da medicina estão vindo. Por exemplo, o Projeto Genoma, que foi concluído há 10 anos, possibilitou que muitos pesquisadores descobrissem o que genes específicos no corpo humano fazem. E agora, existem cerca de 10 drogas que não são receitadas antes que se saiba o perfil genético do paciente. É assim que a medicina deveria ser praticada.  Nesse momento, tratamos todos os seres humanos como se fossem idênticos, mas eles não são. Uma droga que poderia me matar pode te ajudar. Desse modo, as diferenças não são grandes apenas entre espécies, mas também entre os humanos. Então, a única maneira de termos um suprimento seguro e eficiente de remédios é testar as drogas e desenvolvê-las baseados na composição genética de indivíduos humanos. Para se ter uma ideia, a modelagem animal corresponde a apenas 1% de todos os testes e métodos que existem. Ou seja, ela é um pedaço insignificante do todo. O estudo dos genes humanos é uma alternativa. Quando fazemos isso, estamos olhando para grandes populações de pessoas. Por exemplo, você analisa 10.000 pessoas e 100 delas sofreram de ataque cardíaco. A partir daí analisamos as diferenças entre os genes dos dois grupos e é assim que você descobre quais genes estão ligados às doenças do coração. E isso está sendo feito, porém, não o bastante. Há também a pesquisa in vitro com tecido humano. Virtualmente tudo que sabemos sobre HIV aprendemos estudando tecido de pessoas que tiveram a doença e por meio de autópsias de pacientes. A modelagem computacional de doenças e drogas é outra saída. Se quisermos saber quais efeitos uma droga terá, podemos desenvolvê-la no computador e simular a interação com a célula.

Mas ainda não temos informações suficientes para simular o corpo humano no computador...
Temos sim. Não temos informações suficientes para criar 100% do corpo humano e isso não vai acontecer nos próximos 100 anos. Mas não precisamos de toda essa informação. O que precisamos é saber como e do que um receptor celular é constituído — isso já sabemos — e a partir daí podemos desenvolver, no computador, remédios baseados nas leis da química que se encaixem nesses receptores. Depois disso, a droga é testada em tecido humano e depois em seres humanos. Antes disso acontecer, contudo, muitos testes são feitos in vitro e em tecidos humanos até chegar em um voluntário humano.

Um computador não é um sistema vivo completo. Como é possível garantir que essa droga, que nunca foi testada em animais, não será nociva aos seres humanos?
A falácia nesse argumento é que os macacos e camundongos, por exemplo, são seres vivos, mas não são seres humanos intactos. E esse argumento seria muito bom, se ele não fosse tão ruim. Drogas são testadas em macacos e camundongos intactos por quase 100 anos e não há valor preditivo no sentido de dizer quais serão os efeitos da droga no ser humano. O que essas pesquisas têm feito, na verdade, é verificar o que essas drogas causam em macacos e em seres humanos separadamente e não há relação. Por isso, o que dizem é meramente retórico, não há nenhuma base científica.

O senhor já fez experimentos com animais. O que o fez mudar de ideia?
Meu posicionamento mudou apenas uma década depois que terminei a faculdade de medicina. Minha esposa é veterinária e comecei a notar como tratávamos nossos pacientes de maneira muito diferente. Comecei a notar também que alguns remédios funcionam muito bem em animais, mas não funcionam em humanos e algumas drogas funcionam em humanos, mas não podem ser usadas em cães, mas podem ser usadas em gatos e assim por diante. Não estou dizendo que os animais e os humanos são exatamente opostos, não é isso. Eles têm muito em comum.

A semelhança genética de 90% entre humanos e camundongos não é suficiente? 
Aparentemente não. Porque os dados científicos dizem que não. Não me interessa se somos suficientemente semelhantes aos animais para fazer testes neles ou não. A minha interpretação é científica. E a ciência diz que não somos. Na minha experiência clínica isso é verdade porque não conseguimos prever nem quais serão os efeitos de um remédio no seu irmão, realizando testes em você. Algumas drogas que você pode tomar, seu irmão não pode, por exemplo. Contudo, eu não sou contra todo tipo de experimento com animais. É possível recorrer aos animais para utilização de algumas partes. Por exemplo, podemos utilizar a válvula cardíaca de um porco para substituir a de seres humanos. Além disso, é possível cultivar vírus, insulina, mas isso não é pesquisa. O fracasso está em utilizar modelos animais para prever o que irá acontecer com um ser humano. Um ótimo exemplo disso é a Aids. Os animais não desenvolvem essa doença, de jeito nenhum. Eles sofrem de doenças parecidas com a Aids, mas por causa de vírus completamente diferentes. E os sintomas são muito diferentes dos manifestados em pacientes aidéticos. Por isso, não há correlação.

O senhor é contra o eventual sacrifício de animais em pesquisas científicas com o objetivo de salvar milhões de vidas humanas? 
Eu não tenho nenhum problema com isso. Meu problema com pesquisa animal não é de cunho ético e sim, científico. É como dizer que estamos em um cruzeiro atravessando o oceano Atlântico e um indivíduo cai na água e está se afogando. Ele precisa é de um salva-vidas mas não temos nenhum, então vamos arremessar 1.000 cães na água. Por que arremessar os cães na água já que eles não vão salvar a vida da pessoa? Você pode construir um argumento ético dizendo que é aceitável afogar esses cães mas o que eu quero dizer é que a pessoa precisa de um salva-vidas e não 1.000 cães afogados. E é exatamente isso que estamos fazendo com a pesquisa animal. Estamos matando cães pelo bem de matar cães. Não porque matá-los irá trazer a cura para doenças como a Aids ou o Alzheimer.