Monday, June 27, 2011
My Life as an Undocumented Immigrant
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Fernando
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Labels: imigrante, immigration
Sunday, March 2, 2008
Imigração para Canadá e Austrália
Oportunidades
BRASILEIROS NA MIRA DO MERCADO DE TRABALHO INTERNACIONAL
Viviane Macedo
O interesse de outros países em profissionais brasileiros tem aumentando com o passar dos anos, e esse olhar de fora é promissor. Já são muitas as vagas destinadas para imigrantes e muitos países dão prioridade aos brasileiros na seleção.
Québec, no Canadá, é um exemplo de mercado que abre portas aos profissionais brasileiros. A província, que recruta cerca de 45 mil imigrantes todos os anos, tem tanto interesse na mão-de-obra nacional que envia sistematicamente representantes ao Brasil para caçar talentos. Com poucos habitantes e uma taxa de natalidade muito baixa, o governo de Québec decidiu buscar profissionais qualificados em outros países para dar continuidade à sustentação da economia e do mercado locais.
A Austrália também tem um programa muito parecido para recrutar imigrantes. Com um território bastante extenso e uma população de apenas 21 milhões de habitantes – quase a metade da do Estado de São Paulo -, a demanda do mercado de trabalho local não consegue ser suprida e o país necessita buscar talentos no exterior. E os profissionais brasileiros se destacam naturalmente, graças à simpatia, à capacidade de adaptação e à facilidade de aprendizado.
CONHECENDO UM POUCO MAIS DE QUÉBEC
Apesar de estar sempre aberto à imigração e buscar ativamente estrangeiros, Québec realiza um processo criterioso de seleção, pois não são todos os perfis que se encaixam às necessidades da província. Um pré-requisito fundamental para conseguir o visto é o conhecimento de francês, o idioma local.O Canadá tem dois idiomas, mas cada província tem autonomia para escolher o seu. E Québec, por questões históricas, escolheu o francês para ser sua língua oficial. "O profissional precisa ter, no mínimo, 150 horas de estudo do idioma. Mas, se aprovado durante todo o processo, ele ganha do governo um curso de mil horas gratuitas para melhorar a fluência e, com isso, aumentar suas chances de empregabilidade na província", afirma Soraia Tandel, agente de imigração de Québec.
A região canadense está à procura de profissionais jovens, preferencialmente até 35 anos de idade. O estado civil não influencia na possível aprovação do imigrante, assim como o fato de ter ou não filhos. Mas é indispensável que ele tenha os estudos concluídos e experiência profissional em seu país de origem.
Todos os requisitos que formam o perfil ideal para a imigração têm um motivo importante: o profissional que consegue entrar em Québec exerce a profissão em que se formou e atuou - por isso ele precisa ter fluência e dominar a língua local. "A idéia é trabalhar na área mesmo, e não ir para ser faxineiro ou coisas do tipo. A proposta não é lavar chão, limpar prato. É trabalhar com a profissão. Por isso o profissional precisa estar enquadrado no perfil", explica Soraia.
CONSTANTE ASSISTÊNCIA
Segundo Soraia, Québec financia uma série de ONGs – Organizações Não-Governamentais especializadas em Recursos Humanos para ajudar o imigrante a ingressar no mercado de trabalho mais rapidamente: "Cada imigrante tem um serviço de apoio, às vezes individual, às vezes em grupo, para elaboração de currículo, elaboração de carta de apresentação, identificação das empresas que estão contratando, ateliê sobre mercado de trabalho, sobre como passar numa entrevista. Então ele chega na província desempregado, mas não fica sem assistência, ele recebe tudo isso até conseguir um emprego", garante.
O governo também oferece escola, até o ensino médio, e sistema de saúde gratuitamente.
COMO ACONTECE O PROCESSO PARA QUÉBEC
Tudo começa com uma palestra, onde é apresentada a idéia do programa. A agente de imigração fala como acontece o processo e explica quem está habilitado a participar. Depois da palestra e do recolhimento de todas as informações necessárias, o interessado deve estudar francês. Durante o curso ele já pode providenciar todos os documentos e preencher os formulários, que estão descritos no site de Québec .
O próximo passo, já com 150 horas de estudo do francês concluídas, é uma entrevista de seleção, que dá aos aprovados o Certificado de Seleção de Québec - CSQ, documento oficial que atesta que ele está sendo selecionado. Já com o certificado em mãos, o interresado na imigração precisa entrar em contato com o consulado do Canadá em São Paulo (SP) para solicitar o visto. O processo de seleção conta ainda com verificação de antecedentes criminais e exames médicos, para averiguar o histórico de saúde do candidato. Todos os processos envolvem taxas e os valores podem ser conferidos no site da província.
O PROGRAMA DA AUSTRÁLIA
A Austrália também tem um programa que recebe imigrantes do mundo inteiro todos os anos. Em 2007, por exemplo, 110 mil vistos serão concedidos. O país, que vive um quadro adverso com relação ao crescimento da população, não consegue dar conta da demanda do mercado de trabalho e também vai buscar profissionais qualificados no exterior para preencher suas vagas.
Apesar de selecionar profissionais de diversas partes do mundo, a Austrália tem dado grande atenção aos brasileiros e já atraiu muita mão-de-obra daqui.O PERFIL
A Austrália faz todo o seu processo por um sistema de pontos - a pontuação do candidato determina se ele será aprovado ou não no programa. "O governo vai dar mais pontos para quem é mais jovem, para quem fala mais inglês, para quem tem mais experiência. Esse sistema de pontos restringe bastante e segmenta melhor o perfil do profissional que o país procura", explica Érica Carneiro, diretora da Visacorp – agência de imigração australiana.
O profissional precisa ter, no máximo, 44 anos, falar inglês em nível intermediário (com bom nível) e ter trabalhado, no mínimo, um ano dos últimos dois anos.
EM ALTA
A Austrália recebe profissionais de todas as áreas, mas a necessidade do mercado de trabalho local varia. Hoje, por exemplo, as atividades que estão em alta são Contabilidade; Tecnologia da Informação; Engenharias Civil, Mecânica, Elétrica e de Mineração; Terapia Ocupacional, Gastronomia e Psicologia. "Há muitas outras áreas, mas que hoje oferecem menos chances", afirma Érica.
O PROCESSO
A Visacorp é uma empresa registrada só de imigração australiana e presta serviços para pessoas que pretendem entrar no programa. Seu primeiro trabalho é analisar se o profissional tem chances de ser bem-sucedido no processo. "Muita gente se equivoca com a Lei, porque ela é complexa e ambígua. O profissional pensa que pode pedir o visto, gasta dinheiro, dá entrada e ele é recusado. Nós fazemos uma análise do caso da pessoa e dizemos a verdade, se há ou não chances, para só depois darmos início aos trâmites", conta Érica.
Se após essa primeira avaliação for identificado que a pessoa tem chances de ser aceita, ela fecha contrato com a agência, recebe uma lista com todos os documentos necessários e aguarda a resposta do governo da Austrália. Mais informações sobre o processo podem ser conferidos no site da Visacorp .
SEM A AGÊNCIA
O profissional interessado em imigrar para a Austrália pode também fazer esse processo sozinho, seguindo as instruções disponíveis no site do governo do país. Porém, quem fizer essa opção deve estar ciente de que não terá a mesma orientação. "Quando o profissional contrata uma empresa, ele tem um processo muito mais rápido, porque a agência já sabe o que ele precisa e como proceder da melhor forma, tomando as providências necessárias para conseguir o visto. Com a Visacorp, por exemplo, num período entre nove meses e um ano o profissional já está com o visto na mão", afirma Érica.
ELES ACEITARAM O DESAFIO NO CANADÁPreocupados com a violência de São Paulo e dispostos a encarar novos desafios profissionais, Bianca e Odimar Tomazeli decidiram mudar do Brasil. O casal ainda não tinha um caminho traçado, então começou as pesquisas para conhecer um pouco mais sobre outros países. A princípio, Bianca queria ir para os Estados Unidos, mas o marido não concordava com a idéia. Foi quando conheceram uma pessoa que morava no Canadá havia 25 anos. Conversando com ela sobre o país, os dois ficaram bastante animados. "Simplesmente me apaixonei pela idéia de morar em Montreal e, a partir daí, começamos a procurar informações sobre a imigração, que não era tão fácil quanto hoje, e nos preparar para mudar de país", conta Bianca.
Ambos são profissionais de informática e estão trabalhando na área. Eles garantem que fizeram a melhor escolha e não têm vontade de voltar a morar no Brasil. "Eu estive no Brasil em dezembro de 2006 e deu pra sentir na pele a diferença. Acho que a tranqüilidade de você poder andar na rua às 3h da madrugada sem ter medo é algo que não tem preço", diz Odimar.
Sobre a realização profissional, os dois são unânimes: estão completamente realizados, felizes com a carreira e curtindo cada minuto. "Minha experiência está sendo ótima. Eu trabalho num ambiente bilíngüe, francês e inglês, o tempo todo, jamais me imaginei num cenário assim”, declara Odimar. E para Bianca a realização é a mesma. "Estou adorando essa experiência. Nunca achei que conseguiria chegar no nível que estou hoje", finaliza.
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Fernando
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Saturday, March 1, 2008
GOÓC: filosofia vietnamita e coração brasileiro
GOÓC: FILOSOFIA VIETNAMITA E CORAÇÃO BRASILEIRO
* Naísa ModestoNo final dos anos 70, Thai Q. Nghia chegou ao Brasil sem falar uma palavra de português, sem dinheiro ou parentes. Com grande determinação, construiu a Goóc - empresa que cresceu 300% desde o início, em 2004, tem 5 mil pontos-de-venda espalhados pelo Brasil, 15 lojas próprias e exporta a linha de bolsas, calçados e roupas para mais de 20 países.
Com uma fábrica em São Paulo (SP) e outra em Feira de Santana (BA), a empresa já reciclou o equivalente a 400 km de pneus usados – matéria-prima para a confecção dos solados das sandálias.
"Cada cidadão brasileiro terá um par de chinelos Goóc", projeta o vietnamita, que quer comercializar 210 milhões de pares até 2014.
Com jeito bastante simples e sotaque indiscutível, Thai Q. Nghia recebeu na unidade paulista da empresa o jornal Carreira & Sucesso e contou detalhes de sua incrível trajetória de vida:
Newsletter Carreira & Sucesso: Como você chegou ao Brasil?
Thai Q. Nghia: Fugi do Vietnã em 1978 e fui recolhido por um navio petroleiro brasileiro. Quando cheguei ao Brasil, no Rio de Janeiro (RJ), fiquei numa pensão com outros refugiados com ajuda da ONU (Organização das Nações Unidas). Fiquei sob os cuidados da Cruz Vermelha por 40 dias e depois fui para São Paulo. Fiquei na Igreja Nossa Senhora da Paz, no Glicério (bairro da capital paulista), com outros imigrantes. Naquele alojamento, tinha de ficar fora o dia todo e só voltava à noite. Em algum momento, acabava perambulando pela rua. Como sempre gostei muito de estudar, com o primeiro dinheiro que consegui juntar comprei um dicionário para começar a me profissionalizar e estudar a linguagem. No começo foi muito difícil, não entendia nada, não conhecia ninguém. Vim sozinho para o Brasil, não tinha parentes aqui. Passei muito frio também, até usava jornal embaixo das roupas, comia macarrão instantâneo todos os dias, à noite, e durante o dia comia pão com mortadela.
C&S: Quais são as outras dificuldades de adaptação que enfrentou?
Nghia: Não foram só as dificuldades tangíveis, mas também as intangíveis - como a saudade. Isso mata a gente. Você se sente anestesiado, perdido, desmotivado. Mas aquele momento em que saí do Vietnã já mentalizava que estava à procura de liberdade. Isso eu conquistei, mas em condições muito precárias. Mesmo assim, senti que isso era uma necessidade para mim, tinha de fazer a minha vida. Essa sensação de enfrentar as dificuldades é muito maior do que qualquer outro problema que você pode enfrentar.
C&S: Qual foi seu primeiro emprego no País?
Nghia: Comecei tirando fotocópias. Ficava lendo para aprender, traduzir e acabei acostumando com a língua. As coisas melhoraram e três anos depois eu passei no curso de Matemática da USP (Universidade de São Paulo). Em 1986, estava estudando e trabalhando quando emprestei dinheiro a um amigo. Era o final do Plano Cruzado, ele quebrou e fez o pagamento do empréstimo com bolsas. Fui obrigado a sair na rua para vendê-las para recuperar o dinheiro. Vendia as bolsas em Cotia (SP) e Itapevi (SP) e comecei a ganhar dinheiro com isso. Pensei: "isso é legal!". Passei a comprar mais bolsas e continuei vendendo. Um tempo depois, achei melhor parar de trabalhar e pedi demissão. Não me deixaram sair. Em vez disso, queriam me promover. Saí assim mesmo e decidi montar meu negócio. O trabalho foi tomando tanto meu tempo que não conseguia me concentrar nos estudos e abandonei o curso no terceiro ano.C&S: Como surgiu a Goóc?
Nghia: Visitava meus parentes em outros países – Estados Unidos, Austrália, Vietnã, França – e, quando estava em Paris, fui a um museu em que, entre outras peças, havia um tambor. Percebi que por trás do instrumento havia uma longa história, uma resistência. Além disso, existe uma concepção artística muito forte e marcou todas as atividades antigas, como caça, cerimônias, funerais. Resolvi divulgar minha cultura. No Vietnã, as pessoas usam chinelo, aqueles da época da guerra, com sola de pneu. Trouxe isso para o Brasil porque achava que era uma ótima idéia e um bonito projeto. Comecei a pesquisar sobre o solado de pneu reciclado e ofereci ao mercado. No começo, os lojistas não aceitaram muito bem porque julgavam que os chinelos tinham uma concepção estética muito estranha. Mas o jovem entendeu o escopo, conseguiu se identificar com o produto e passou a procurar a marca. Aí, sim, os lojistas começaram a nos procurar para querer comprar o produto.
C&S: O que quer dizer Goóc?
Nghia: Raiz.
C&S: A que o senhor atribui o crescimento da marca?
Nghia: Primeira coisa: acho que tivemos coragem de sermos diferentes e de quebrar paradigmas. Temos outro padrão estético. Consegui criar alguma coisa que se alinha com a mentalidade do País. Os brasileiros são pessoas boas, que aceitam a diversidade e celebram as diferenças. As pessoas que têm afinidade com a marca conseguiram captar isso.
C&S: E essa preocupação com o meio ambiente, de onde vem?
Nghia: O que mais importa para mim não é a questão ambiental em si, mas ser diferente, ter liberdade, escolher seu caminho. Também é importante a inclusão, aceitar o que as outras pessoas não aceitam, como o lixo. Trabalhar com um material que ninguém quer mais - neste ponto entram as questões ambientais. Espero do meu produto não somente que ele dê conforto para as pessoas, nem que dê status a elas, mas que passe uma mensagem de questionar, provocar, pensar de uma maneira diferente. Quero mostrar que passamos por muitas dificuldades para alcançar nossos objetivos, nossos sonhos.
C&S: Durante minha visita pela fábrica, percebi que em todos os lugares encontramos faixas com mensagens motivacionais. Uma delas dizia que é preciso identificar as nuvens, beber a água da fonte e pedir ajuda. O que isso quer dizer?
Nghia: Beber água da fonte é porque na comunicação costumamos ouvir interpretação em cima de interpretação, e não pegamos a informação direto da fonte. Isso gera vários desentendimentos. Por isso, não pegue a interpretação, beba na fonte. A outra frase fala sobre identificar nuvens: acho que a função de qualquer gerência é prever e identificar ameaças, se são temporárias ou prolongadas. Cabe ao coordenador identificar que tipo de crise é essa que está chegando. Além disso, é importante pedir ajuda, dizer "não sei, por favor, me ajude". Há muitas pessoas que não estão dispostas a ajudar e outras que não têm coragem de pedir ajuda.
C&S: Depois de ter conquistado tantas coisas importantes, ainda tem algum sonho a ser alcançado?
Nghia: Quero voltar a estudar. Para os próximos anos, queremos atingir 210 milhões de produtos para o povo brasileiro. Estamos exportando muito bem, crescemos bastante com as exportações, mas nosso foco é o Brasil. A longo prazo, quero descansar e cuidar da minha vida.C&S: Já que o senhor mencionou as exportações, como foi decidido levar os negócios para fora do Brasil?
Nghia: Participamos de uma feira no Anhembi (centro de exposições em São Paulo) e lá tivemos contato com muitos compradores que gostaram do produto. Eles entenderam rapidamente o propósito da nossa marca, viram as diferenças no nosso conceito, a simbologia. Talvez os estrangeiros dêem mais valor a isso. Os compradores vieram ao nosso encontro, não o contrário. Mas, volto a dizer, nosso foco não é fora do País, é aqui!
C&S: Se tivesse que eleger um produto que fosse o carro-chefe da empresa, qual seria?
Nghia: O primeiro projeto a gente nunca esquece (risos)! O nome do produto é Yepp. O modelo tem a história do povo vietnamita, de luta, de identidade. Temos outro produto que tem uma cara mais brasileira, o K-Zero. É bem simples, despojado. Acho muito bonito. São poucos produtos que me deixam plenamente satisfeitos, mas este tem uma harmonia muito legal.
C&S: Quais características pessoais o senhor julga determinantes para seu sucesso?
Nghia: A primeira coisa é gostar de ler. Quando eu sentia que estava perdido, que estava faltando alguma coisa, recorria aos livros. Tentava procurar respostas, não uma, mas várias. Foi isso que me ajudou. Não digo que isso leva ao sucesso, acho que é uma vantagem que tenho com relação a outras pessoas. Outra coisa: gosto muito de desafios. Quando eu acredito em uma coisa, pode me machucar ou me fazer sofrer, mas eu sigo em frente. Muitas vezes estou errado, mas quando isso acontece, tenho que mudar rapidamente de estratégia.
C&S: Da sua cultura vietnamita, o que trouxe para o Brasil?
Nghia: Muito legal a sua pergunta. Sabe, eu não sabia que minha vida era assim. Eu não enxergava tudo desse jeito. Depois que passei a conversar com os jornalistas, escutar as perguntas e pensar nas respostas, fui montando um filme da minha vida. Achava que era uma vida como qualquer outra, mas depois passei a perceber que tinha algumas diferenças mesmo. Com essa pergunta, você me ajuda a fundamentar os acontecimentos. No Vietnã, havia um poeta muito famoso que teve uma vida que eu admiro muito. Foi uma pessoa que não se apegava à glória ou renome, uma pessoa muito independente. Ele tentou por mais de 20 anos entrar para o exército, conseguiu pertencer ao alto escalão e depois foi rebaixado a soldado. Quando perguntaram para ele como via aquela situação, ele disse: "Quando eu era general, não achava que isso era a glória. Por isso, agora que sou soldado, não acho que sou mais humilde". Ele provou ser assim ao longo da vida. Essa simplicidade me inspira muito. Aqui na empresa, não acho que status é uma coisa importante. Sempre sento com os funcionários - eu não tenho sala. Hoje sento em uma mesa, amanhã em outra... Converso com todos, estou sempre andando pela fábrica. Só vejo meus e-mails à noite. Acho que essas coisas eu aprendi com a cultura do Vietnã. Tento passar isso para as pessoas. Você não é chefe para ter status, mas para ensinar e transmitir conhecimento, isso é o mais importante.
C&S: Se pudesse resumir com uma palavra sua trajetória, qual seria?
Nghia: Pode parecer incrível, mas resumiria em "fé".
* Naísa Modesto é jornalista da Catho Online. Tel.: (11) 3177-0700 ramal 124.
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Saturday, December 22, 2007
História de como Thai Q. Nghia chegou do Vietnã ao Brasil e prosperou
http://www.catho.com.br/jcs/inputer_view.phtml?id=8746
Entrevista
GOÓC: FILOSOFIA VIETNAMITA E CORAÇÃO BRASILEIRO
* Naísa Modesto
No final dos anos 70, Thai Q. Nghia chegou ao Brasil sem falar uma
palavra de português, sem dinheiro ou parentes. Com grande
determinação, construiu a Goóc - empresa que cresceu 300% desde o
início, em 2004, tem 5 mil pontos-de-venda espalhados pelo Brasil, 15
lojas próprias e exporta a linha de bolsas, calçados e roupas para
mais de 20 países.
Com uma fábrica em São Paulo (SP) e outra em Feira de Santana (BA), a
empresa já reciclou o equivalente a 400 km de pneus usados –
matéria-prima para a confecção dos solados das sandálias.
"Cada cidadão brasileiro terá um par de chinelos Goóc", projeta o
vietnamita, que quer comercializar 210 milhões de pares até 2014.
Com jeito bastante simples e sotaque indiscutível, Thai Q. Nghia
recebeu na unidade paulista da empresa o jornal Carreira & Sucesso e
contou detalhes de sua incrível trajetória de vida:
Newsletter Carreira & Sucesso: Como você chegou ao Brasil?
Thai Q. Nghia: Fugi do Vietnã em 1978 e fui recolhido por um navio
petroleiro brasileiro. Quando cheguei ao Brasil, no Rio de Janeiro
(RJ), fiquei numa pensão com outros refugiados com ajuda da ONU
(Organização das Nações Unidas). Fiquei sob os cuidados da Cruz
Vermelha por 40 dias e depois fui para São Paulo. Fiquei na Igreja
Nossa Senhora da Paz, no Glicério (bairro da capital paulista), com
outros imigrantes. Naquele alojamento, tinha de ficar fora o dia todo
e só voltava à noite. Em algum momento, acabava perambulando pela rua.
Como sempre gostei muito de estudar, com o primeiro dinheiro que
consegui juntar comprei um dicionário para começar a me
profissionalizar e estudar a linguagem. No começo foi muito difícil,
não entendia nada, não conhecia ninguém. Vim sozinho para o Brasil,
não tinha parentes aqui. Passei muito frio também, até usava jornal
embaixo das roupas, comia macarrão instantâneo todos os dias, à noite,
e durante o dia comia pão com mortadela.
C&S: Quais são as outras dificuldades de adaptação que enfrentou?
Nghia: Não foram só as dificuldades tangíveis, mas também as
intangíveis - como a saudade. Isso mata a gente. Você se sente
anestesiado, perdido, desmotivado. Mas aquele momento em que saí do
Vietnã já mentalizava que estava à procura de liberdade. Isso eu
conquistei, mas em condições muito precárias. Mesmo assim, senti que
isso era uma necessidade para mim, tinha de fazer a minha vida. Essa
sensação de enfrentar as dificuldades é muito maior do que qualquer
outro problema que você pode enfrentar.
C&S: Qual foi seu primeiro emprego no País?
Nghia: Comecei tirando fotocópias. Ficava lendo para aprender,
traduzir e acabei acostumando com a língua. As coisas melhoraram e
três anos depois eu passei no curso de Matemática da USP (Universidade
de São Paulo). Em 1986, estava estudando e trabalhando quando
emprestei dinheiro a um amigo. Era o final do Plano Cruzado, ele
quebrou e fez o pagamento do empréstimo com bolsas. Fui obrigado a
sair na rua para vendê-las para recuperar o dinheiro. Vendia as bolsas
em Cotia (SP) e Itapevi (SP) e comecei a ganhar dinheiro com isso.
Pensei: "isso é legal!". Passei a comprar mais bolsas e continuei
vendendo. Um tempo depois, achei melhor parar de trabalhar e pedi
demissão. Não me deixaram sair. Em vez disso, queriam me promover. Saí
assim mesmo e decidi montar meu negócio. O trabalho foi tomando tanto
meu tempo que não conseguia me concentrar nos estudos e abandonei o
curso no terceiro ano.
C&S: Como surgiu a Goóc?
Nghia: Visitava meus parentes em outros países – Estados Unidos,
Austrália, Vietnã, França – e, quando estava em Paris, fui a um museu
em que, entre outras peças, havia um tambor. Percebi que por trás do
instrumento havia uma longa história, uma resistência. Além disso,
existe uma concepção artística muito forte e marcou todas as
atividades antigas, como caça, cerimônias, funerais. Resolvi divulgar
minha cultura. No Vietnã, as pessoas usam chinelo, aqueles da época da
guerra, com sola de pneu. Trouxe isso para o Brasil porque achava que
era uma ótima idéia e um bonito projeto. Comecei a pesquisar sobre o
solado de pneu reciclado e ofereci ao mercado. No começo, os lojistas
não aceitaram muito bem porque julgavam que os chinelos tinham uma
concepção estética muito estranha. Mas o jovem entendeu o escopo,
conseguiu se identificar com o produto e passou a procurar a marca.
Aí, sim, os lojistas começaram a nos procurar para querer comprar o
produto.
C&S: O que quer dizer Goóc?
Nghia: Raiz.
C&S: A que o senhor atribui o crescimento da marca?
Nghia: Primeira coisa: acho que tivemos coragem de sermos diferentes e
de quebrar paradigmas. Temos outro padrão estético. Consegui criar
alguma coisa que se alinha com a mentalidade do País. Os brasileiros
são pessoas boas, que aceitam a diversidade e celebram as diferenças.
As pessoas que têm afinidade com a marca conseguiram captar isso.
C&S: E essa preocupação com o meio ambiente, de onde vem?
Nghia: O que mais importa para mim não é a questão ambiental em si,
mas ser diferente, ter liberdade, escolher seu caminho. Também é
importante a inclusão, aceitar o que as outras pessoas não aceitam,
como o lixo. Trabalhar com um material que ninguém quer mais - neste
ponto entram as questões ambientais. Espero do meu produto não somente
que ele dê conforto para as pessoas, nem que dê status a elas, mas que
passe uma mensagem de questionar, provocar, pensar de uma maneira
diferente. Quero mostrar que passamos por muitas dificuldades para
alcançar nossos objetivos, nossos sonhos.
C&S: Durante minha visita pela fábrica, percebi que em todos os
lugares encontramos faixas com mensagens motivacionais. Uma delas
dizia que é preciso identificar as nuvens, beber a água da fonte e
pedir ajuda. O que isso quer dizer?
Nghia: Beber água da fonte é porque na comunicação costumamos ouvir
interpretação em cima de interpretação, e não pegamos a informação
direto da fonte. Isso gera vários desentendimentos. Por isso, não
pegue a interpretação, beba na fonte. A outra frase fala sobre
identificar nuvens: acho que a função de qualquer gerência é prever e
identificar ameaças, se são temporárias ou prolongadas. Cabe ao
coordenador identificar que tipo de crise é essa que está chegando.
Além disso, é importante pedir ajuda, dizer "não sei, por favor, me
ajude". Há muitas pessoas que não estão dispostas a ajudar e outras
que não têm coragem de pedir ajuda.
C&S: Depois de ter conquistado tantas coisas importantes, ainda tem
algum sonho a ser alcançado?
Nghia: Quero voltar a estudar. Para os próximos anos, queremos atingir
210 milhões de produtos para o povo brasileiro. Estamos exportando
muito bem, crescemos bastante com as exportações, mas nosso foco é o
Brasil. A longo prazo, quero descansar e cuidar da minha vida.
C&S: Já que o senhor mencionou as exportações, como foi decidido levar
os negócios para fora do Brasil?
Nghia: Participamos de uma feira no Anhembi (centro de exposições em
São Paulo) e lá tivemos contato com muitos compradores que gostaram do
produto. Eles entenderam rapidamente o propósito da nossa marca, viram
as diferenças no nosso conceito, a simbologia. Talvez os estrangeiros
dêem mais valor a isso. Os compradores vieram ao nosso encontro, não o
contrário. Mas, volto a dizer, nosso foco não é fora do País, é aqui!
C&S: Se tivesse que eleger um produto que fosse o carro-chefe da
empresa, qual seria?
Nghia: O primeiro projeto a gente nunca esquece (risos)! O nome do
produto é Yepp. O modelo tem a história do povo vietnamita, de luta,
de identidade. Temos outro produto que tem uma cara mais brasileira, o
K-Zero. É bem simples, despojado. Acho muito bonito. São poucos
produtos que me deixam plenamente satisfeitos, mas este tem uma
harmonia muito legal.
C&S: Quais características pessoais o senhor julga determinantes para
seu sucesso?
Nghia: A primeira coisa é gostar de ler. Quando eu sentia que estava
perdido, que estava faltando alguma coisa, recorria aos livros.
Tentava procurar respostas, não uma, mas várias. Foi isso que me
ajudou. Não digo que isso leva ao sucesso, acho que é uma vantagem que
tenho com relação a outras pessoas. Outra coisa: gosto muito de
desafios. Quando eu acredito em uma coisa, pode me machucar ou me
fazer sofrer, mas eu sigo em frente. Muitas vezes estou errado, mas
quando isso acontece, tenho que mudar rapidamente de estratégia.
C&S: Da sua cultura vietnamita, o que trouxe para o Brasil?
Nghia: Muito legal a sua pergunta. Sabe, eu não sabia que minha vida
era assim. Eu não enxergava tudo desse jeito. Depois que passei a
conversar com os jornalistas, escutar as perguntas e pensar nas
respostas, fui montando um filme da minha vida. Achava que era uma
vida como qualquer outra, mas depois passei a perceber que tinha
algumas diferenças mesmo. Com essa pergunta, você me ajuda a
fundamentar os acontecimentos. No Vietnã, havia um poeta muito famoso
que teve uma vida que eu admiro muito. Foi uma pessoa que não se
apegava à glória ou renome, uma pessoa muito independente. Ele tentou
por mais de 20 anos entrar para o exército, conseguiu pertencer ao
alto escalão e depois foi rebaixado a soldado. Quando perguntaram para
ele como via aquela situação, ele disse: "Quando eu era general, não
achava que isso era a glória. Por isso, agora que sou soldado, não
acho que sou mais humilde". Ele provou ser assim ao longo da vida.
Essa simplicidade me inspira muito. Aqui na empresa, não acho que
status é uma coisa importante. Sempre sento com os funcionários - eu
não tenho sala. Hoje sento em uma mesa, amanhã em outra... Converso
com todos, estou sempre andando pela fábrica. Só vejo meus e-mails à
noite. Acho que essas coisas eu aprendi com a cultura do Vietnã. Tento
passar isso para as pessoas. Você não é chefe para ter status, mas
para ensinar e transmitir conhecimento, isso é o mais importante.
C&S: Se pudesse resumir com uma palavra sua trajetória, qual seria?
Nghia: Pode parecer incrível, mas resumiria em "fé".
* Naísa Modesto é jornalista da Catho Online. Tel.: (11) 3177-0700
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